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Home›.Tudo›A Receita de um grupo e de uma atriz

A Receita de um grupo e de uma atriz

Por 4 Parede
12 de abril de 2015
2504
2
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Por Bruno Siqueira

A 3ª edição do TREMA! trouxe em sua programação o espetáculo A Receita (confira o teaser AQUI), apresentado nesta sexta-feira (10) no Espaço O Poste para uma plateia numerosa – mais de 100 espectadores para o pequeno e aconchegante espaço do grupo O Poste: Soluçōes Luminosas. Neste trabalho, já apresentado no ano de 2014, Samuel Santos assina a direção, a dramaturgia, a encenação e o figurino. Naná Sodré é a atriz que realiza o solo. É sobre esse recorte que gostaria de tecer algumas breves considerações.

Segundo relato do próprio grupo, A Receita teve como embrião uma cena de 5 minutos, resultado do trabalho que Naná Sodré construiu junto a Eugenio Barba e Julia Varley, no VI Masters-in-Residence, ocorrido em Brasília no ano de 2013. A partir dessa experiência, Samuel Santos e Naná deram continuidade à pesquisa do ator, em Recife, com o apoio do edital de ocupação do Teatro Joaquim Cardozo/UFPE, no período de maio a julho de 2014.

Dialogando com Michael Chekhov, Vsevolod Meyerhold e Eugenio Barba, com foco no teatro físico, Samuel Santos propõe uma encenação minimalista. No espaço cênico, a atriz Naná Sodré, valendo-se de poucos elementos, constrói sua dramaturgia atorial, para mostrar sua persona: uma mulher, casada e mãe, que passa a maior parte de seu tempo na cozinha, sublimando, com a arte culinária, sua condição de mulher oprimida. A persona que a atriz mostra não é só uma. Reflete a vida das várias mulheres que ainda vivem sob o jugo do esposo, homem, macho, cabendo a elas fazerem o que a cultura falocêntrica lhes permite fazer: cuidar do lar, dos filhos, e cozinhar para a família, engolindo não os produtos de sua arte (culinária), mas todas as humilhações que o poder masculino lhes impõe.

Também se trata de uma mulher negra. A encenação dá continuidade às pesquisas que O Poste vem realizando sobre as raízes africanas pertencentes aos nossos processos culturais. Cantos e orações de raízes africanas se misturam, num sincretismo particular, às orações advindas da cultura cristã. O resultado é uma partitura sonora impactante.

Mas essa partitura sonora se perderia na cena se não houvesse uma atriz com o vigor de Naná Sodré. Depois de Cordel do Amor sem Fim e de Ombela, Naná prova, em A receita, que está no auge de sua carreira como atriz. Uma atriz madura, consciente de seus recursos psicofísicos, que constrói uma dramaturgia expressiva com seu próprio corpo. A atriz trabalha sua bios cena, desconstruindo suas técnicas cotidianas e contrapondo a elas as técnicas extracotidianas, na contramão dos condicionamentos habituais do uso do corpo. De acordo com Eugenio Barba, “as técnicas cotidianas do corpo tendem à comunicação; as do virtuosismo a provocar assombro. As técnicas extracotidianas tendem à informação: literalmente põem-em-forma o corpo, tornando-o artístico, artificial, porém crível”.

E o melhor de tudo: a técnica não se sobrepõe à magia da cena. Pelo contrário, faz valer sua própria condição: modo exato de perfazer uma tarefa. Ao final do espetáculo, não ficamos com a sensação de que se trata de um mero exercício para demonstrar uma técnica, como alguns espetáculos daqui de Recife (e de outros horizontes) nos fazem ver. Assistimos, n’ A Receita, a uma arte como produção, como trabalho. Nas palavras de Bosi, um “movimento que arranca o ser do não ser, a forma do amorfo, o ato da potência, o cosmos do caos”. Dos ensinamentos de Barba, de Chekhov e de Meyerhold, a atriz e seu encenador/diretor trans-formam a matéria oferecida pela cultura e recriam uma dramaturgia muito particular, que nos faz viver e sentir não só uma gratificante experiência estética, como também nos permite refletir mais ainda sobre a condição da mulher em nossa sociedade. Da mulher e, em particular, da mulher negra. Bons ventos ao trabalho d’ O Poste: Soluções Luminosas. Bons ventos a Naná Sodré. Que mais composições dessa qualidade nos sejam oferecidas ao deleite e ao encantamento.

REFERÊNCIAS

BARBA, Eugenio. A canoa de papel – tratado de antropologia teatral. 2a. ed. Trad. Patrícia Alves. Brasília: Teatro Caleidoscópico, 2009.

BOSI, Alfredo. Reflexões sobre a arte. 2a. ed. São Paulo: Ática, 1986.

Saiba mais sobre Samuel Santos e O Poste na entrevista realizada pelo 4a Parede AQUI.

TagsBruno SiqueCríticaEspaço O PosteNaná SodréSamuel Santos
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Nos últimos anos, o mundo passou por transformaç Nos últimos anos, o mundo passou por transformações sociais, políticas e tecnológicas que questionam nossas relações com o espaço e a cultura. As tensões globais, intensificadas por guerras e conflitos, afetam a economia, a segurança alimentar e o deslocamento de pessoas. 

Nesse contexto, as fronteiras entre o físico e o virtual se diluem, e as Artes da Cena refletem sobre identidade, territorialidade e convívio, questionando como esses conceitos influenciam seus processos criativos. 

Com a ascensão da extrema direita, a influência religiosa e as mudanças climáticas, surgem novas questões sobre sustentabilidade e convivência.

Diante deste cenário, o dossiê #20 Território em Trânsito traz ensaios, podcasts e videocast que refletem sobre como artistas, coletivos e os públicos de Artes da Cena vêm buscando caminhos de diálogo e interação com esses conflitos.

A partir da próxima semana, na sua timeline.
#4Parceria: Quer aprofundar seus conhecimentos sob #4Parceria: Quer aprofundar seus conhecimentos sobre as histórias e as estéticas dos teatros negros no Brasil? 

Estão abertas as inscrições, até o dia 13/09, para a oficina on-line Saberes Espiralares - sobre o teatro negro e a cena contemporânea preta. 

Dividida em três módulos (Escavações, Giras de Conversa e Fabulações), o formato intercala aulas expositivas, debates e rodas de conversa que serão ministrados pela pesquisadora, historiadora e crítica cultural Lorenna Rocha. 

A atividade também será realizada com a presença das artistas convidadas Raquel Franco, Íris Campos, Iara Izidoro, Naná Sodré e Guilherme Diniz. 

Não é necessário ter experiência prévia. A iniciativa é gratuita e tem incentivo do Governo do Estado de Pernambuco, por meio do Funcultura, e parceria com o @4.parede 

Garanta sua vaga! 

Link na bio. 

Serviço:
Oficina SABERES ESPIRALARES - sobre teatros negros e a cena contemporânea preta
Datas: Módulo 1 – 16/09/24 – 20/09/24; Módulo 2 (participação das convidadas) – 23/09/24 – 27/09/24; Módulo 3 – 30/09/24 - 04/10/24. Sempre de segunda a sexta-feira
Datas da participação das convidadas: Raquel Franco - 23/09/24; Íris Campos - 24/09/24; Iara Izidoro - 25/09/24; Naná Sodré - 26/09/24; Guilherme Diniz - 27/09/24
Horário: 19h às 22h
Carga horária: 45 horas – 15 encontros
Local: Plataforma Zoom (on-line)
Vagas: 30 (50% para pessoas negras, indígenas, quilombolas, 10% para pessoas LGBTTQIA+ e 10% para pessoas surdas e ensurdecidas)
Todas as aulas contarão com intérpretes de Libras
Incentivo: Governo do Estado de Pernambuco - Funcultura
Inscrições: até 13/09. Link na bio

#teatro #teatronegro #cultura #oficinas #gratuito #online #pernambuco #4parede #Funcultura #FunculturaPE #CulturaPE
#4Panorama: O MIRADA – Festival Ibero-Americano #4Panorama: O MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realizado pelo Sesc São Paulo, ocorre de 5 a 15 de setembro de 2024, em Santos. 

A sétima edição homenageia o Peru, com onze obras, incluindo espetáculos e apresentações musicais. O evento conta com doze peças de Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Espanha, México, Portugal e Uruguai, além de treze produções brasileiras de vários estados, totalizando 33 espetáculos. 

A curadoria propõe três eixos: sonho, floresta e esperança, abordando temas como questões indígenas, decoloniais, relações com a natureza, violência, gênero, identidade, migrações e diversidade. 

Destaque para "El Teatro Es un Sueño", do grupo Yuyachkani, e "Esperanza", de Marisol Palacios e Aldo Miyashiro, que abrem o festival. Instalações como "Florestania", de Eliana Monteiro, com redes de buriti feitas por mulheres indígenas, convidam o público a vivenciar a floresta. 

Obras peruanas refletem sobre violência de gênero, educação e ativismo. O festival também inclui performances site-specific e de rua, como "A Velocidade da Luz", de Marco Canale, "PALMASOLA – uma cidade-prisão", e "Granada", da artista chilena Paula Aros Gho.

As coproduções como "G.O.L.P." e "Subterrâneo, um Musical Obscuro" exploram temas sociais e históricos, enquanto espetáculos internacionais, como "Yo Soy el Monstruo que os Habla" e "Mendoza", adaptam clássicos ao contexto latino-americano. 

Para o público infantojuvenil, obras como "O Estado do Mundo (Quando Acordas)" e "De Mãos Dadas com Minha Irmã" abordam temas contemporâneos com criatividade.

Além das estreias, o festival apresenta peças que tratam de questões indígenas, memória social, política e cultura popular, como "MONGA", "VAPOR, ocupação infiltrável", "Arqueologias do Futuro", "Esperando Godot", entre outras.

Serviço: MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, de 5 a 15 de setembro de 2024, em Santos. 

Para saber mais, acesse @sescsantos
#4Panorama: Nos dias 05, 14, 21 e 28 de setembro, #4Panorama: Nos dias 05, 14, 21 e 28 de setembro, acontece Ocupação Espaço O Poste, com programação que inclui a Gira de Diálogo com Iran Xukuru (05/09) e os espetáculos “Antígona - A Retomada” (14/09), “A Receita” (21/09) e “Brechas da Muximba” (28/09).

Espaço O Poste (Rua do Riachuelo, 467, Boa Vista - Recife/PE), com apoio do Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas 2023, promove atrações culturais que refletem vivências afropindorâmicas em sua sede, no Recife/PE. 

A Gira de Diálogo com Iran Xukuru acontece em 05/09, às 19h, com entrada gratuita. Iran Xukuru, idealizador da Escola de Vida Xukuru Ynarú da Mata, compartilhará conhecimentos sobre práticas afroindígenas, regeneração ambiental e sistemas agrícolas tradicionais.

Em 14/09, às 19h, o grupo Luz Criativa apresenta “Antígona - A Retomada”, adaptação da tragédia grega de Sófocles em formato de monólogo. Dirigido por Quiercles Santana, o espetáculo explora a resistência de uma mulher contra um sistema patriarcal opressor. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

Em 21/09, às 19h, Naná Sodré apresenta “A Receita”, solo que discute violência doméstica contra mulheres negras, com direção de Samuel Santos. A peça é fundamentada na pesquisa “O Corpo Ancestral dentro da Cena Contemporânea” e utiliza treinamento de corpo e voz inspirado em entidades de Jurema, Umbanda e Candomblé. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

No dia 28/09, às 19h, ocorre a 3ª edição do projeto “Ítàn do Jovem Preto” com o espetáculo “Brechas da Muximba” do Coletivo À Margem. A peça, dirigida por Cas Almeida e Iná Paz, é um experimento cênico que mistura Teatro e Hip Hop para abordar vivências da juventude negra. Entrada gratuita mediante retirada de ingresso antecipado no Sympla.

Para saber mais, acesse @oposteoficial
#4Papo: O espetáculo MACÁRIO do brazil, dirigido #4Papo: O espetáculo MACÁRIO do brazil, dirigido por Carlos Canhameiro, estreia no TUSP Maria Antonia e segue em temporada até 1º de setembro de 2024. O trabalho revisita o clássico Macário, de Álvares de Azevedo (1831-1852), publicado postumamente em 1855. Trata-se de uma obra inacabada e a única do escritor brasileiro pensada para o teatro.

Para abordar o processo de criação da obra, o diretor Carlos Canhameiro conversou com o Quarta Parede. Confira um trecho da entrevista:

‘Macário é uma peça inacabada, publicada à revelia do autor (que morreu antes de ver qualquer de seus textos publicados). Desse modo, a forma incompleta, o texto fragmentado, com saltos geográficos, saltos temporais, são alguns dos aspectos formais que me interessaram para fazer essa montagem’

Para ler a entrevista completa, acesse o link na bio.
#4Papo: O livro Elegbára Beat – um comentário #4Papo: O livro Elegbára Beat – um comentário épico sobre o poder é fruto dos 20 anos de pesquisa de rodrigo de odé sobre as relações entre capoeira angola, teatro negro, cinema, candomblé e filosofia africana. 

Publicado pela Kitabu Editora, o texto parte da diversidade racial negra para refletir sobre as relações de poder no mundo de hoje. O autor estabelece conexões entre o mito de nascimento de Exu Elegbára e algumas tragédias recentes, como o assassinato do Mestre Moa do Katendê, o assassinato de George Floyd, a morte do menino Miguel Otávio e a pandemia de Covid-19.

Para abordar os principais temas e o processo de escrita do livro, o autor rodrigo de odé conversou com o Quarta Parede. Confira um trecho da entrevista:

‘Em Elegbára Beat, a figura de Exu também fala sobre um certo antagonismo à crença exagerada na figura da razão. Parafraseando uma ideia de Mãe Beata de Yemonjá, nossos mitos têm o mesmo poder que os deles, talvez até mais, porque são milenares. Uma vez que descobrimos que não existe uma hierarquia entre mito e razão, já que a razão também é fruto de uma mitologia, compreendemos que não faz sentido submeter o discurso de Exu ao discurso racional, tal como ele foi concebido pelo Ocidente. Nos compete, porém, aprender o que Exu nos ensina sobre a nossa razão negra’

Para ler a entrevista completa, acesse o link na bio.
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