Crítica – PretAção: I Mostra de Mulheres Pretas | Carta às mulheres atrizes de pele preta

Imagem – Shilton Araújo
Por Lorenna Rocha
Graduanda na Licenciatura em História (UFPE) e crítica teatral
Esse evento só reforça uma cultura, que é eminentemente nossa, essa coisa do quilombo mesmo. Principalmente, feito por mulheres. A cultura africana é matriarcal, né? As mulheres sempre estão organizando as coisas. Nós somos aquelas que fazem as coisas assentar. Criar lugar. Criar vínculo. Aterrar.
Jhanaina Gomes
Enquanto me dirigia ao trabalho no ônibus lotado, durante um dia de chuva em Recife, revisitei o texto Falando línguas: uma carta às mulheres escritoras do terceiro mundo de Gloria Anzaldúa. Decidi então que, para falar de assuntos íntimos a mim, era preciso escrever de maneira que nos aproximasse. Hoje, escrevo (mas não só) para aquelas pretas que escolheram as artes cênicas como instrumento profissional, de luta ou de auto-realização: você, que já deve ter passado por vários desafios para se manter no lugar que acredita para si. Talvez você esteja no ônibus lendo esse texto, ou em algum bar dividindo sua atenção entre seu copo e essas linhas, ou sentada perto de alguma janela que lhe faça um vento nos cabelos enrolados…
Desculpe-me quem esperava deste texto uma crítica engessada. Escolhi falar sobre a PretAção – I Mostra de Mulheres Pretas, realizada n’O Poste, dia 25 de julho de 2019, data da Mulher Afro-latino americana e Caribenha e de Tereza de Benguela, de forma um pouco mais viva.
Nossa.
Permitindo as emoções passarem pelo meu (nossos) corpo(s) – corpa(s) – negro(s) (NEGRAS) e desembocando em algum lugar o qual ainda não sei…
“Nós estamos muito felizes. Conseguimos fazer uma Mostra do tamanho que nós podíamos fazer. Dentro das condições que nós poderíamos fazer. E o mais gratificante para o Grupo O Poste foi o resultado: discutimos questões relacionadas à negritude de forma ampliada. Os espetáculos davam o mote e, coletivamente, conseguíamos ver outras possibilidades…”
Naná Sodré
Por esses dias, 28 de julho de 2019, uma hermana atriz nos deixou: Ruth de Souza. A primeira mulher negra a subir no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Lá nos anos 40, com o Teatro Experimental do Negro (de Abdias, de Ruth, de Léa, de Haroldo), abrindo passagem para tantas atrizes negras, como Agrinez Melo e Naná Sodré, que idealizaram essa Mostra. Como também para as artistas Aline Gomes, Brunna Martins, Camila Mendes, Érika Nery, Jhanaina Gomes, Luana Vitória, Odailta Alves e Yasmmyn Nejaim, as quais acompanharam as mulheres do Grupo O Poste nessa nova jornada.

Ruth de Souza em Passos dos Ventos (1968), TV Globo | Foto – Autor Desconhecido | #4ParedeParaTodos #PraTodoMundo Ver – Imagem em preto e branco focada no rosto de uma mulher negra. Ela está olhando fixamente para a câmera, encarando-a. Seu cabelo está preso e envolto por um turbante de tecido estampado.
Não há como não conectar essas histórias: nesse fios tecidos do teatro brasileiro, negritar a História do Teatro é reivindicar o direito de nossa existência e fala. O que implica uma mulher negra no palco? Apesar de ter subido ao palco algumas poucas vezes, peço permissão de entrar em contato com você do lugar de onde falo: como historiadora, pesquisadora e crítica em formação, além de negra! E claro, amante das artes cênicas…
Mas, voltando a nossa querida Ruth de Souza, como a Zezé Mota, Léa Garcia, entre tantas outras… Desse lugar de onde falo, penso que tecer tais conexões entre passado-presente, é clamar por um presente-futuro: desejo que possamos ser vistas. Não pelas corpas subjugadas, estereotipadas e colonizadas que, há séculos, são apontadas/taxadas/subtraídas pela branquitude, que nos aponta como o “Outro” que eles não querem ser.¹ Mas por nossas próprias experiências, subjetividades, memórias, histórias, dores, vontades, felicidades, desejos.
“Existe um medo apreensivo de que, se o(a) colonizado(a) falar, o(a) colonizador(a) terá que ouvir e seria forçado(a) a entrar em uma confrontação desconfortável com as verdades do ‘Outro’. Verdades que têm sido negadas, reprimidas e mantidas guardadas, como segredos.”
Grada Kilomba
O que encontrei n’O Poste, durante os dias que acompanhei a Mostra, foi um espaço de construção de autonomia e emancipação, realizado por meio da colaboração entre todas as envolvidas. Elas não tiveram incentivo financeiro nenhum para realização da Mostra. Mulheres em processo, como nos atenta Daiana de Moura. Mulheres em percurso, inventando um lugar, já que esses conceitos não aparecem prontos ou não existem para essas mulheres negras.² Mulheres em percursos. No plural. Afinal, muitas de nós fazemos tantas coisas ao mesmo tempo… Nunca prontas… Nunca suficientes… Como disse Djonga, pra eles nota seis é muito, pra nóis nota dez ainda é pouco!
“Eu, que tenho facilidade com as palavras, não soube tudo o que significou para mim a PretAção. Um festival como esse, novo, que me dá lugar, me dá vez, me dá voz. No Teatro, em Recife, onde eu já fui tão marginalizada… Já me fizeram acreditar que isso era porque eu não tava me esforçando o suficiente… Demorou um tempo para perceber que essa marginalização é, talvez, porque não correspondo aos padrões: tenho coxas largas, bochechas grandes, boca carnuda, cabelos cacheados. Isso já me deixa fora da caixinha.”
Camila Mendes
Durante as rodas de conversa que aconteceram depois dos espetáculos a cada dia, Agrinez e Naná, emocionadíssimas, nos contaram que compartilhavam há tempos o desejo de realizar essa ação. Na busca do Grupo em produzir atividades para movimentar o Espaço O Poste, julho parecia o mês perfeito para a realização dessa mostra, visibilizando também a data 25 de julho. Motivadas, a conexão entre todas as envolvidas aconteceu de forma rápida: a montagem da programação se deu em uma hora de reunião. Dessa experiência, não se criou apenas um “novo festival”, mas uma rede de fortalecimento entre essas mulheres atrizes negras, que em algum momento (ou no plural) de suas trajetórias não se viam representadas no palco… Ou que não se sentiam completamente inseridas nas artes cênicas…. Ou que ainda são “as únicas pretas do rolê” em seus trabalhos… Ou, repetidamente, são confrontadas em relação ao seu comprometimento, sua capacidade, para fazerem suas personagens…
“É difícil jogar/
Quando as regras servem pra decretar o meu fim”
Da Lama – Tássia Reis
Mas é nessa produção de um lugar próprio, como a Mostra PretAção, que surge um contra-movimento: podemos (e devemos) comunicar aquilo que queremos. Há o que falar. Há o que compartilhar. Por necessidade.
Na nossa própria língua. Com nossos próprios referenciais.
E não, não estamos excluindo ninguém.
Samuel Santos já havia comentado sobre como o Grupo O Poste enxerga – e direciona – suas próprias práticas. Durante uma entrevista concedida ao Quarta Parede (ouça AQUI), Samuca, como conhecido pelos mais íntimos, apontou que, quando se pensa sobre a importância da produção de festivais voltados para as negritudes, como o Luz Negra, essas ações objetivam criar imagens positivadas das experiências das populações negras no Brasil, como das culturas africanas e diaspóricas. A Mostra PretAção também se inscreve nesse contexto. Através da perspectiva dialógica e pedagógica, Agrinez e Naná buscaram promover mulheres artistas e negras do Estado: é sobre visibilidade, representatividade, sobre o ato de falar.

Espetáculo ‘Ombela’, do grupo O Poste | Foto – Lucas Emanuel | #4ParedeParaTodos #PraTodoMundoVer – Imagem colorida com fundo preto. O foco está em duas mulheres negras. A foto está mostrando seus corpos da cintura para cima. Ambas estão sorrindo. A mulher do lado esquerdo da foto está vestida com roupa azul clara com detalhes brancos, portando um adereço de cabeça dos mesmos tons de sua roupa. Ela está posicionada lateralmente e de braços abertos, levantando o tecido de sua roupa, olhando para a mulher em sua frente, que está no lado direito da foto. A outra mulher veste roupa de tom amarelo com detalhes brancos, também portando adereço de cabeça dos mesmos tons de suas roupas. Posicionada lateralmente, ela faz o mesmo gesto para a mulher que está em sua frente.
Ao que me parece, inclusive, as plateias não se sentiram ofendidas por estarem participando de uma atividade realizada apenas por mulheres negras: o momento de debate com as artistas presentes possibilitou um momento de escuta, o que, de certa forma, proporcionou adentrar em debates sobre essas mulheres negras artistas integrantes da PretAção. Que não falam apenas de si, mas das experiências de tantas outras:
- De estar inserida em alguns espetáculos, só por estarem em cena, que não dão conta do que essas corpas negras enunciam…
- De se incomodar com o termo “mulata” sendo utilizado para a construção de sua personagem e a direção do espetáculo não se movimentar para compreender o que historicamente e simbolicamente essa palavra significa…
- De como as mulheres são vistas em seus locais de produção de cultura, como no caso do samba, onde a cultura da passista acaba por congelar a imagem da mulher negra nesse espaço e produz opressões sobre esses corpos, desde a infância, estimulando a competição entre as mulheres…
- De conseguir identificar como o colorismo opera na sociedade brasileira, possibilitando o acesso do palco (e de outros lugares) para mulheres de peles mais claras, do que para mulheres negras de pele retinta…
- De identificar a ausência de políticas públicas que, efetivamente, se preocupem com a produção artística dessas mulheres negras, que, em contextos de editais, festivais, curadorias, muitas vezes se encontram afastadas do circuito e consequentemente seguem invisibilizadas…
“Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar?”
Grada Kilomba
As línguas e corpos de dez mulheres diferentes – em tom, curvas, idade, cabelo – se entregaram n’O Poste, imersas em temas como ancestralidade, a exemplo da performance Mãe Maria, de Aline Gomes; narrativas autobiográficas, em Mi Madre, de Jhanaina Gomes, e Histórias Bordadas em Mim, de Agrinez Melo; violência doméstica, como em A Receita, de Naná Sodré; resistência negra, em Nada Mais Me Deixará Calada, de Yasmmyn Nejaim…
Em comum, essas mulheres pretas buscavam criar novas identidades para si, novas imagens, novas conexões (entre si, por si mesmas, entre elas e a plateia, entre nós que estamos escrevendo/lendo esse texto)… Libertas, rainhas, dançarinas, deusas… Abrigadas pelas culturas ancestrais, africanas: na música, no orixá que dinamiza – e rege – a performance, na comida servida antes do espetáculo começar. Conectadas através da diáspora.
Insurgentes.
O que você, mulher, preta, atriz, tem a enunciar?
“No terceiro dia da Mostra, a fala foi sobre machismo, solidão da mulher preta, sobre saúde mental da população negra. As falas fluíram. Em um nível urgente. Sem pisar em ovos. E só reafirma a certeza de que temos por viver esses lugares. E falar sobre todas as nossas questões.”
Naná Sodré
É… A ferida colonial ainda dói, como diz o título da performance da Jota Mombaça, e como fomos lembradas pelas chicotadas que anunciavam o início da performance de Brunna Martins, De CORpo. Mas estilhaçar as máscaras³ sobrepostas em nossos corpos é romper com a tradição do silêncio.
Novos trajetos.

Espetáculo ‘As lebres são maiores que os ursos’, do Coletivo Despudorado | Foto – Fernando Azevedo | #4ParedeParaTodos #PraTodoMundoVer – Imagem colorida com fundo preto. Na imagem, uma mulher negra de joelhos, vestida apenas com uma saia longa amarrada na cintura. Seus cabelos ruivos e cacheados estão soltos e volumosos. Portando um chicote preto em suas duas mãos, ela levanta-o em cima de sua cabeça, esticando-o na horizontal, olhando para ele.
Dar atenção e espaço a essas narrativas é ir contra decisões eugenistas: nas escolas, quando não atendem à Lei 11.645/2011; na televisão, quando temos que contar quantas atrizes negras têm numa novela global que se passa na Bahia; no teatro, quando ainda contamos nos dedos quantas personagens negras existem em cena, ou quantas mulheres pretas estão na produção, na direção, na escrita dramatúrgica; nas artes visuais, quando, em uma exposição de mulheres, há apenas uma negra no rolê (de novo). É também humanizar essas corpas e produzir espaços de afetos, como a Mostra PretAção que, ainda tão recente, já reverbera na história negritada do teatro em Pernambuco. É sobre criar novas formas de existência no mundo.
“Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim. Sobre você.”
Gloria Anzaldúa
Me sinto espiralar: indo e voltando em temas que se apresentam para mim o tempo todo e que me atravessam, me afetam. Nesse momento, estou escutando o disco de Serena Assumpção, Ascensão (2016). Entre diferentes sonoridades que não consigo identificar direito e os toques dos orixás que constroem o álbum, tenho certeza que as feridas coloniais não estão perto de ser fechadas… Mas tenho por vista que PretAção – I Mostra de Mulheres Pretas pode indicar possíveis caminhos de cura, como dito pela própria Naná Sodré, durante uma conversa. E se falamos de curar, isso nos faz lembrar de camadas, de retorno.. De processos de reflexão. E, nesse sentido, uma auto-reflexão das próprias integrantes da Mostra: precisamos convidar atrizes negras retintas para nossa rede. E no palco, essas escolhas produzem outros debates, já que outros temas poderão ser encontrados nessas produções. Penso o mesmo sobre a presença de corpas negras LBTQIA+ nesse espaço.
Não tenho dúvidas: PretAção nasce grande… E poderá ser espelho para outras mulheres negras que estão nos caminhos das artes cênicas… E poderá ser espada para, através do fazer artístico, responder ao preconceito racial… às violências que mulheres negras estão expostas… E poderá abrir rios de novas possibilidades dentro da produção independente, colaborativa e coletiva… Novos ventos virão!
“Eu vou ter minha língua de serpente – minha voz de mulher, minha voz sexual, minha voz de poeta. Eu vou superar a tradição de silêncio.”
Gloria Anzaldúa
Que nossas energias se renovem.
Com carinho,
Lorenna.
Notas de Rodapé
¹. KILOMBA, Grada. “The Mask” In: Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. Untast Verla, 2. Edição, 2010. Tradução de Jessica Oliveira de Jesus.
². DE MOURA, Daiana. Mulher negra in process. Revista Aspas. Vol. 7. Nº 1. USP. São Paulo, 2017. p. 100-111.
³. As discussões sobre o silenciamento imposto pelo colonialismo, feitas por Grada Kilomba, partem do instrumento de tortura “Máscara de Flandres”, utilizado durante o processo de escravização de africanos/as, e também da imagem “Escrava Anastácia” de Jacques Etienne Arago. Nesse sentido, o/a colonizado/a silenciada cria sua identidade a partir do que se é dito sobre ele. Utilizo então do termo máscara como instrumentos de imposição e aprisionamento sob nossos corpos e, consequentemente, sob nossas narrativas.
Referências
ANZALDUA, Gloria. Como domar uma língua selvagem. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Difusão da língua portuguesa, no 39, p. 297-309, 2009. (Disponível em: http://www.cadernosdeletras.uff.br/joomla/images/stories/edicoes/39/traducao.pdf)
ANZALDUA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para mulheres escritoras do terceiro mundo. Ensaios. Revista Estudos Feministas. Universidade Federal de Santa Catarina. p. 229-236. Janeiro, 2000. (Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880/9106)
DE MOURA, Daiana. Mulher negra in process. Revista Aspas, Vol. 7, Nº 1. USP. São Paulo, 2017. p. 100-111. (Disponível em: https://www.revistas.usp.br/aspas/article/view/131921)
KILOMBA, Grada. The Mask. In: Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. Untast Verla, 2. Edição, 2010. Tradução de Jessica Oliveira de Jesus. (Disponível em: https://www.revistas.usp.br/clt/article/viewFile/115286/112968)
LIMA, Evani Tavares. Por uma história negra do teatro brasileiro. Urdimento, v.1, n. 24. p. 92-104, julho, 2015. (Disponível em: http://www.revistas.udesc.br/index.php/urdimento/article/download/1414573101242015092/4484)