Crítica – Le Sacre du Sucre | No tambor, na voz e no corpo

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Imagem – Divulgação
Por Maria Elisa Barbosa e Guilherme Bispo
O espetáculo assistido durante o 28º Festival Internacional de Dança do Recife, em diálogo com a temporada de acordos entre França-Brasil, Le Sacre du Sucre (em tradução livre, “A Sagração do Açúcar”), de Léna Blou, possui um caráter profundamente simbólico e político, uma vez que surge da necessidade de criar outra narrativa para a Ilha de Guadalupe, local de onde a arte-educadora e antropóloga vem. Esse arquipélago caribenho que ainda hoje é território francês permite estabelecer convergências com a realidade de diversos países que refletem a diáspora africana e compartilham perspectivas de resistência e reexistência dos povos afrodescendentes. Desse modo, Blou não apenas deseja ser considerada francesa legalmente, assim como o povo de Guadalupe, mas também de assumir sua identidade guadalupense.
O rito, ou sagração, vem ao Brasil em sua primeira turnê e representa a história escravagista da ilha, utilizando o açúcar como selo e metáfora da colonização. Guadalupe, portanto, vive a mesma situação que o Recife passou, que é o sistema de “plantation açucareira”, que refletiu-se em uma violenta exploração, resultado do modus operandi colonial. No entanto, Léna Blou não traz à cena o trauma ou o sofrimento dos afrodescendentes, mas sim, aquilo que eles carregam de inteligência, sabedoria e criação.
O que nos perpassa os olhos ao assistir é que, apesar da escravidão, de toda violência e de forçadas submissões, existe a beleza de uma força motriz de pulsação subjetiva que une os imaginários colonizados e serve de movimento para a criação livre de existências. A performance propõe uma mawonaj, termo que remete à fuga dos escravizados. Desse modo, trata-se de uma fuga do pensamento colonizado, que desloca a narrativa da dor para a potência de vida e de capacidade de reinvenção. A artista ressignifica o açúcar, símbolo central da colonização e da exploração, transformando-o em metáfora de emancipação e ancestralidade, retratando a intelectualidade e a vanguarda dos escravizados.
A estrutura que fundamenta o espetáculo é a mesma que permeia os trabalhos de Léna Blou, que é a matriz do Gwoka, prática cultural e dança tradicional de Guadalupe que une vários ritmos ao canto, dança e percussão. Em Le Sacre du Sucre, Léna se utiliza, especificamente, do Lewoz, que é uma dança que tem uma relação muito forte entre o músico e o dançarino. Essa dança se assemelha a uma sambada, faz-se em roda e possui um contato direto com o tambor, pois entra de um a um dançarino/a para dançar o que está sendo tocado e tocar o que está sendo dançado. Há uma correlação direta entre o que se cria, um jogo de proposição muito forte, onde o músico toca o que vê o bailarino dançar e vice-versa. Isso se torna totalmente perceptível no espetáculo, uma vez que se observa um contato muito íntimo entre dança e música, uma corporalidade encarnada no improviso de uma dança latente em seus corpos sonoros.
Assim, em meio a um formato ocidental e euro-referenciado de espetáculo, deságua em outra cosmogonia, na qual o som também é rito e o manifesto pode ser arte. Dessa forma, Léna Blou rompe as fronteiras entre corpo e som, entre ancestralidade e contemporaneidade. É nesse momento que o gesto e o improviso se consolidam em uma só linguagem, valorizando o corpo como território de memória e como ferramenta de reexistência dos corpos negros escravizados.
Outro aspecto importante mencionado por Léna e que aparece como assinatura de seu movimento, tendo representação direta no espetáculo, é o Bigidi. Conceito advindo do crioulo, língua natural local de Guadalupe e Dominica, está ligado à desordem da escravidão, ao desequilíbrio. Ela pesquisa, justamente, na estrutura do Lewoz, o Bigidi, que seriam esses corpos que cambaleiam, desequilibram, mas nunca caem, algo que fundamenta e aproxima essa obra ao nosso frevo de rua e faz alusão inclusive ao passo “bêbado”, entre outros.
Léna Blou se interessa e se deixa tocar por esse desequilíbrio e defende, através do seu estudo das danças de matriz Gwoka, que este é um fundamento básico da criação de corpo afrodiaspórica, que viveu a colonização e a travessia atlântica. Dessa forma, ela traz o espetáculo não só pra mostrar a realidade de Guadalupe ou do Caribe, mas a conjuntura que permeia todos os países colonizados da América Latina , um contexto que nos une.
Podemos observar que a obra dialoga com o conceito de corpo-arquivo e com a ideia de tempo circular que organiza as estéticas negras. Cada batida, que aparece no espetáculo de diversas maneiras, no tambor, na voz e no corpo, constrói um ambiente que funda a memória coletiva e espiritual do povo guadalupense. Um registro de corpo que marca e representa um passado, mas que permanece vivo no futuro através da performance de criação viva, resgatando, através da dança a reminiscência de corpos diaspóricos e suas inteligências.
É interessante perceber, na construção de movimento de Léna Blou, a semelhança com diversas danças brasileiras que são fundadas a partir de uma vivência afrodiaspórica. Nota-se, na obra, uma malandragem da capoeira, que fornece as raízes para o frevo, sendo possível observar a assimetria corporal tão presente nas danças negras, o que proporciona uma sensação de que já vimos essa dança por aqui. Dessa forma, é importante destacar que essas danças, mesmo nascidas em geografias distintas, compartilham um fundamento ontológico que parte do mesmo lugar: a corporalidade negra.
Ao convocar o gwoka e instaurar uma dramaturgia que se organiza em espiral, coloca-se em questão a fronteira que separa o espetáculo do rito, dissolvendo o limite entre ancestralidade e contemporaneidade. A obra se inscreve, assim, em uma poética da contra dramaturgia, na qual o gesto, o som e o ritmo produzem conhecimento e instauram mundos.
Mais do que um espetáculo, Le Sacre du Sucre é um ato político, uma reafirmação da potência inventiva dos corpos negros e de sua capacidade de criar sentidos outros para o mundo. Em cada batida e em cada movimento, o público é convidado a presenciar não uma representação da história, mas sua reinvenção: viva, pulsante e inacabada.












