Dossiê #22 Corporeidades e Diferenças

(Vol IX | Nov 2026)

Vivemos um tempo em que os corpos são continuamente convocados a responder, produzir e se adequar. Entre métricas de eficiência e produtividade, a experiência parece comprimida por expectativas que regulam modos de existir, sentir e aparecer. Até mesmo a arte, espaço historicamente associado à invenção e à liberdade, não escapa dessas disputas.

Mas a criação insiste em outro tempo. Um tempo da pausa, do desvio, da vulnerabilidade e da duração. Um tempo em que o corpo deixa de ser apenas instrumento para tornar-se território de experiência. Ainda assim, permanece a pergunta: quem pode ocupar a cena hoje? Quem pode criar, ser visto e ser reconhecido como produtor de conhecimento e de sensibilidade?

Nos últimos anos, políticas públicas e recursos de acessibilidade comunicacional ampliaram a presença de pessoas com deficiência em festivais, espetáculos e espaços culturais. LIBRAS, audiodescrição, legendagem e outras ferramentas tornaram-se mais frequentes. Mas será que isso basta? Talvez nosso desafio seja compreender a acessibilidade como uma força capaz de transformar os próprios processos de criação, curadoria, crítica e recepção.

Enquanto persistem estruturas marcadas por tradições eurocêntricas, brancas, masculinas e capacitistas, outras presenças atravessam a cena. Corpos historicamente invisibilizados deixam de reivindicar apenas inclusão para produzir deslocamentos estéticos e políticos. Nesse contexto, diferentes corporalidades reinventam modos de criar, de perceber e de compartilhar experiências, compreendendo as deficiências em suas potências estéticas, críticas e inventivas.

É nesse horizonte que o Dossiê #22 – Corporeidades e Diferenças propõe um espaço de reflexão. Como pensar a criação artística quando a acessibilidade deixa de ser complemento e passa a constituir a própria obra? Que estéticas emergem quando diferentes corpos ocupam a cena em seus próprios termos?

Sumário

 

Dossiê #21 Ruínas ou Reinvenção?

(Vol VIII | Dez 2025)

Nos últimos anos, a cena tem se movido entre estilhaços e reinícios. O que parecia volta não é retorno, mas reconfiguração. A criação se esgarça, dos palcos para os terreiros, das salas para as ruas, das estruturas institucionais para os espaços íntimos. A arte performativa parece cada vez mais extensão da vida. E não sua representação.

Qual o espaço da arte presencial quando o vídeo é quase tudo? Hoje, essa linguagem permanece como desdobramento: o vídeo como vestígio, como outra dimensão, como ferramenta para novas perguntas. A saúde mental vira uma questão para a sociedade como um todo e também atravessa os palcos. O que significa criar e fruir na escala 24/7, quando tudo parece correr e estagnar ao mesmo tempo? 

Enquanto as mineradoras extraem toda a vida das montanhas e da Terra, os ricos se planejam para colonizar Marte e os homens de poder permanecem matando mulheres e crianças em suas guerras infantis e em nome de Deus.

Como é possível se reinventar em meio às ruínas? Enquanto artistas se voltam ao autoconhecimento, ao corpo que sente antes de explicar, os teatros se esvaziam. Refletores viram carcaça. Equipamentos, fantasmas. Espaços que mofam. Será que romantizar a precariedade na criação precisa ser uma alternativa? Muitos desistiram. Outros, persistem à margem.

As curadorias tentam respirar fora da caixa. Há desejo de sair do teatro, há público para isso. Mas há também uma ferida: onde se apresentar hoje? O que é necessário para sustentar um espaço de ensaio, de encontro, de provocação contínua? Os editais concentram produção em janelas estreitas. O mercado impõe ritmos exaustivos. 

Nesse cenário, o dossiê #21 Ruínas ou Reinvenção? pergunta: o que significa durar? Como resistir sem romantizar o esforço constante? Entre a ausência de festivais e os corpos que ainda dançam, o que se move na cena é menos espetáculo e mais insistência. A arte hoje parece acontecer em ruínas. Ainda existe espaço para reinvenção?

Sumário

Ensaio | Caixa Preta – Caixa Aberta: Notas sobre reabertura e gestão do espaço cultural
Por Renata Corrêa e Raquel Guerra

Ensaio | Entre Vitrines Seletivas e Ruínas Invisíveis – Crítica, Prêmio e Desigualdade na Cena Fluminense
Por Jefferson Almeida (de Souza)

Podcast | Encontros, palhaçaria e outros palcos
Com Olga Ferraria | Por Liana Gesteira

Ensaio | Território em movimento: a política dos corpos no breaking
Por Ana Caroline Leopoldino

Ensaio | As vísceras da dramaturgia. Práticas de loucura para uma escrita
Por Alana Kikkawa Prado

Podcast | Salas, vielas e o palco como convivência
Com Paula de Renor | Por Márcio Andrade

Ensaio | Uma pausa para revelar memórias invisíveis: dança a partir das ruínas
Por Isabel Rocha, Líria Morais e Bárbara Santos

Ensaio | O Picadeiro e a Fênix
Por Suenne Sotero

Podcast | Lado de Fora – a autopoiesis e a vida como obra
Com Marcelo Coutinho | Por João Guilherme de Paula

Ensaio | O Corpo-Casa da Loucura: entre memórias, pesquisa e ficção
Por Débora dos Santos Almeida Souza

Ensaio | Reinvenção Artística em Territórios de Precariedade: Exorcismos Urbanos
Por Wagner Pyter

Podcast | Sal no Palco, Tempo no Deslocamento
Com Alexandre Américo | Por Adson Alves

Ensaio | O diário do ano da peste: entre o cinema e o teatro
Por Anamaria Sobral Costa

Ensaio | Panapaná e a escrita como dança
Por Carolina Amaral

Videocast | Cadê o teatro que estava aqui?
Por Arthur Carvalho, João Guilherme de Paula e Márcio Andrade