Entrevista – Uma escolha radical | Definitiva Cia. de Teatro

|
Ouça essa notícia
|
Imagem – Paula Diniz
A Definitiva Cia. de Teatro celebra dezoito anos de trajetória com uma ocupação que reúne parte significativa de suas pesquisas mais recentes, reafirmando um percurso marcado pela criação coletiva, pela experimentação de linguagem e pela investigação continuada sobre as relações entre teatro, música, memória e presença. Fundada em 2008, a companhia desenvolveu, ao longo de quase duas décadas, dois eixos de pesquisa que atravessam sua produção: a Cena-Música, dedicada à construção de uma poética em que a música constitui a própria dramaturgia da cena, e os Exercícios de Atuação, estudos que partem da materialidade do ator para investigar os limites entre experiência vivida, ficção e elaboração teatral.
Na entrevista ao Quarta Parede, a Definitiva reflete sobre os processos que deram origem à companhia, os modos de criação compartilhada e as transformações de sua pesquisa ao longo dos anos. Ao comentar espetáculos como O Princípio da Incerteza, O Susto e Elipse, o grupo discute o uso de memórias pessoais como disparadores dramatúrgicos, a dimensão metalinguística do fazer teatral e a escolha de expor os próprios mecanismos da criação em cena.
A Definitiva Cia. de Teatro é um coletivo artístico fundado na Escola de Teatro da UNIRIO, no Rio de Janeiro, dedicado à pesquisa em criação coletiva, atuação e dramaturgia contemporânea. Ao longo de sua trajetória, realizou espetáculos como Calabar, Deus e o Diabo na Terra do Sol, A Hora da Estrela, O Som e a Fúria, Bendegó, O Princípio da Incerteza, O Susto e Elipse, consolidando uma prática artística que articula investigação estética, formação continuada e permanência coletiva como princípios fundamentais de criação.
A Definitiva nasceu em 2008 no Centro de Letras e Artes da UNIRIO e, desde então, desenvolve projetos de criação, formação e experimentação artística. Como foi o encontro de vocês e a construção dessa trajetória de pesquisa e criação?
O diretor-pedagogo Jurij Alschitz afirma em um de seus livros algo como: uma companhia não é uma decisão que se toma à priori, é uma espécie de compreensão coletiva que se dá no bojo de um projeto, em geral, prático. A Definitiva comprova essa ideia. Nós nos reunimos, em 2008, em torno de uma ideia que era fruto de um desejo.
O desejo: experimentar na prática o gênero musical (então, em franco ressurgimento). A ideia: realizar esse desejo através de uma montagem de Calabar, o elogio da traição, de Chico Buarque e Ruy Guerra. Tamires Nascimento e eu reunimos um grupo de colegas que se sentiam mobilizados pela ideia e que compartilhavam do desejo e pedimos o apoio institucional da Escola de Teatro da UNIRIO que nos cedeu sala para o processo, espaço de apresentação, equipamento e o apoio dos técnicos responsáveis.
O processo do Calabar atravessou dois semestres (tempo que só é possível disponibilizar, com a intensidade e prioridade que disponibilizamos, naquele contexto), período em que Tamires e eu precisamos, na tentativa e erro (muitos erros), aprender estratégias de produção que foram a base de nossas organizações futuras.
Calabar foi um projeto que durou dois anos e foi no percurso desse projeto que, coletivamente, entendemos que gostaríamos de ser uma companhia porque, de certa forma, já éramos. Os erros desse percurso sedimentaram o primeiro conjunto de decisões que tomamos acerca de modos de produzir e de conduzir processo e que passamos a aplicar a partir do nosso segundo projeto, a montagem de Deus e o diabo na terra do sol – já menos ligada ao desejo de experimentar o teatro musical, mas, compreendendo uma pesquisa de linguagem que passaria a ser desenvolvida com mais consciência.
As pesquisas Cena-Música e Exercícios de Atuação parecem ocupar um lugar central na identidade da companhia. Como surgiu o interesse nessas investigações e como elas foram reverberando dentro do trabalho da Definitiva?
Da origem ligada ao teatro musical, alguns pontos ficaram como fundamentais para a nossa pesquisa: a presença da música (e uma busca por torná-la cada vez mais constituinte da poética da cena) e uma ligação referencial com o teatro épico-dialético brechtiano – sabemos que grande parte da obra teatral de Chico Buarque é diretamente influenciada pela produção de Brecht e esses aspectos formais, já percebidos em Calabar, passaram a constituir nosso campo de pesquisa.
A escolha por Deus e o diabo na terra do sol como material para a nossa segunda investida e o modo como essa encenação foi sendo construída, marcam uma virada radical das nossas buscas para esse campo. A essa pesquisa chamamos Cena-Música e, dentro delas, além dos já citados, desenvolvemos os espetáculos A hora da estrela (2017, a partir do romance de Clarice Lispector), O som e a fúria – Um estudo sobre o trágico (2020, primeira dramaturgia criada para a companhia, em processo colaborativo, por Rosyane Trotta) e Bendegó (2024, também em processo colaborativo, por Livs).
A nossa temporada de O som e a fúria foi interrompida pela pandemia de covid-19. A dificuldade de voltar a nos reunir, depois desse fim de mundo (considerando que uma de nossas componentes perdeu o pai para a covid – que vai ser material para O susto), e das minúsculas verbas que começaram, felizmente, a aparecer pela Política Nacional Aldir Blanc, me ocorreu sugerir à companhia começarmos um segundo modo de produzir/pesquisar, através de uma linha de pesquisa que, ao passo que alimenta a Cena-Música, pode ser absolutamente independente dela. É assim que surgem os Exercícios de Atuação. Linha de pesquisa onde os componentes do grupo sugerem uma temática que gostariam de trabalhar individualmente ou em dupla e nós vamos para a sala de ensaio desenvolver estudos de cena que partem da materialidade da presença do ator e da sua capacidade de dar a ver.
Os Exercícios, então, nos dão a liberdade de investigação que a Cena-Música, pelas escolhas que fizemos ao longo dos anos, não abraça mais. À medida que vamos ampliando nossas capacidades com os Exercícios, a Cena-Música vai sendo alimentada e ficando cada vez mais sofisticada e nos interessando que sua delimitação ganhe contornos firmes. São, de fato, linhas de pesquisa independentes e, internamente, muito conectadas.
Em alguns espetáculos, como O Princípio da Incerteza e O Susto, vocês articulam memórias pessoais a outros dispositivos de elaboração cênica. Nesses espetáculos, como vocês trabalham o trânsito entre experiência vivida, ficção e construção teatral?
O modo como percebo, a natureza – se é que posso chamar assim… A natureza dos Exercícios de atuação foi sendo percebida através de uma escuta muito atenta ao processo. Princípio da Incerteza, o Exercício de Atuação Nº 1, tem sua origem ligada a uma obra literária – o livro Esaú e Jacó, de Machado de Assis. Logo que lancei a pergunta que dispararia o processo – “Será possível, no mundo tal qual o conhecemos, uma real ideia de igualdade?” –, os atores (João Vítor Novaes e Marcelo de Paula) começaram a alimentar a sala de ensaio com suas histórias, memórias, fotografias… Com suas biografias. E elas foram se misturando às dos personagens e compondo uma trama em que os fios ficcionais e os reais têm a mesma importância.
A certa altura da peça, Marcelo diz: “Tudo que vocês viram até agora é ficção. Não tem jeito, o teatro captura tudo”. E é um pouco assim que nós resolvemos articular esses planos, tornando-os indistintos, tornando tudo ficção, considerando de que não interessa o que é real e o que é ficcional originalmente, tudo está a serviço do exercício e das discussões que queremos colocar no mundo.
O susto nasce de um fato real – a morte do pai de Tamires em decorrência da covid-19, mas, esse fato serve de disparador pra discutirmos o luto, esse sentimento que nos atravessa a todos e que nos aguarda com a certeza de quem sabe que não vai passar. Luto elabora-se, mas, não se livra dele. A pandemia nos obrigou a formas muito confusas de atravessar essa elaboração, e a peça é uma maneira de, coletivamente, elaborarmos isso e, claro, celebrarmos a vida.
Já Elipse adentra num terreno metalinguístico ao deslocar o foco para o próprio fazer teatral, revelando processos e mecanismos normalmente invisíveis ao público. O que motivou esse desejo de expor a engrenagem da criação em cena?
Aqui a biografia da Livs também está absolutamente posta no processo. É, talvez, dos Exercícios, o que mais deixa reconhecer o que é biográfico. Como o dado metalinguístico também é componente dos outros Exercícios. Anteriormente falei sobre uma “natureza” dessa linha de pesquisa… Se a presença do dado biográfico é um dos componentes, outro componente fundamental é a consciência de que o Exercício se dá no e através do teatro. Somos uma companhia de teatro. Teatro é o que nos uniu e nos mantém, diariamente, juntos. Há 18 anos. É o nosso assunto.
Livs é uma mulher de teatro e, sendo o teatro componente fundamental de sua biografia (ela que é atriz, diretora, dramaturga, iluminadora e técnica de iluminação), ele é o assunto desse Exercício. Os modos como ela (e nós) vai (vamos) desenvolvendo habilidades afins, sempre dentro do teatro, para seguir fazendo teatro. É uma reflexão sobre modos de sobrevivência, do ponto de vista concreto e existencial também. Elipse é uma revelação desses aspectos e dos modos através dos quais construímos a cena como um espaço de escritas múltiplas (da palavra, do corpo, do movimento, da luz, dos sentidos).
A Ocupação – Definitiva 18 anos marca os 18 anos da Definitiva Cia. de Teatro. Que olhar vocês fazem hoje sobre essa trajetória e quais transformações consideram mais significativas ao longo desse percurso?
Realizar essa ocupação nos ajuda a ler com mais clareza a trajetória que estamos trilhando. Reunir os três resultados dessa linha de pesquisa específica denota nosso desejo de nos implicarmos cada vez mais nas criações que fazemos e, de certa forma, de abrir nossos processos de criação – os Exercícios são compostos de modo que os processos vazem no resultado final como processo, com certo grau de inacabado/em pesquisa.
Os Exercícios nos mostram de maneira menos protegida e nos ajudam a pisar no palco com mais consciência de quem somos, do que falamos e do mundo que queremos propor com nossos espetáculos. Essa coragem de construir uma cena que nos revela a nós mesmos vem da maturidade de um percurso construído passo-a-passo com muito esforço.
Viver em companhia é uma escolha radical e que carrega a responsabilidade de uma visão de mundo que considera só ser possível existir coletivamente. Mas, que isso não é uma escolha fácil. É preciso reafirmá-la todos os dias e, todos os dias, buscar estratégias de seguir assim. Isso ainda parece ser aquilo que considero mais consistente e mais significativo ao longo desses anos: a manutenção dessa escolha. Claro que avançamos esteticamente, mas, isso é resultado do quanto avançamos enquanto uma comunidade que escolheu resistir nesse modo de produzir supra-capitalista e que, por encará-lo dessa maneira, permite-se a radicalidade da pesquisa.














