Crítica – ONDE A VIDA INSISTE | Performar o verde: Presença e pertencimento da natureza na malha urbana

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Imagem – Reprodução/Instagram
Por Annelisy Francisca e Leandro Pereira
Onde a vida insiste é uma performance itinerante em dança criada pelos artistas Guilherme Allain e Isabela Severi. A performance aconteceu na forma de dois trajetos sensíveis que foram percorridos coletivamente, artistas e público, nos bairros de Santo Antônio e São José. Sendo uma performance itinerante, a lógica de quem pode ou não prestigiar o trabalho é quebrada e, através de ativações performáticas e intervenções no espaço urbano, os artistas convidam o público a uma outra experiência seguindo agora pelo bairro da Várzea, tendo como fio condutor o reconhecimento da presença e da relação com ervas daninhas, líquens e fungos ao longo do caminho. Segundo os artistas, ONDE A VIDA INSISTE é uma pergunta e uma afirmação, a partir da qual os artistas dançam, convidando o público a percorrer rotas que se desenham a partir da presença dessas existências mais que humanas.
Onde a vida insiste, nas ruas, no “entre-muros” das pessoas, o vazio que habitam se incorpora e materializa no espaço da partilha com as ervas daninhas. “Me aproximo para te escutar, você também me vê?” último trecho da primeira das quatro cartas que servem como guia para o trajeto e que são disponibilizadas ao público antes do início da performance. Ao fruir, o olhar dos espectadores sobre a performance itinerante revela o papel da mediação. As lanternas estimulam a aproximação do público que percebe de uma nova maneira a planta (erva daninha) nos pilares de concreto.
Seguindo para a segunda carta, o movimento em conjunto se presentifica nos troncos, na simbiose de fungos e algas se associando aos troncos das árvores com densidades maiores e cheias de vida. O figurino se torna parte importante nesse momento, pois passa a ser um material vivo ocupante daquele espaço quando o movimento está presente no tronco das árvores. Segundo o artista Guilherme Allain, a proposta do figurino foi associar a simbiose entre fungos e algas, com a estética cyberpunk com roupas largas em tie-dye, criando manchas nos tons azul, verde e acinzentadas, dando vida aos artistas que se camuflam junto aos líquens. O percurso leva o público a uma reflexão sobre a coletividade intrínseca à simbiose e sobre o não ser corpo sozinho. A frase “o líquen nunca diz ‘eu’ sozinho” sintetiza a persistência em que “eu” abraça um “nós”.
A performance, que segue à terceira carta, nos leva a observar que as vidas humana e vegetal no ambiente são mais notórias a partir da intenção de serem compartilhadas. Nesse momento, espalhando pelo espaço ao redor linhas verdes amarradas numa trepadeira, os performers se envolvem nessas linhas. “ O teu gesto de tocar, pulsar da tua célula verdejosa” palavras estas da carta que traduzem o desejo de continuidade entre corpos, de criar vida a partir do toque. Ao mencionar o termo tigmotropismo – citado pelos os artistas na carta, que na biologia descreve o movimento das plantas em resposta ao contato físico -, o trabalho reafirma o corpo como lugar de aprendizado com o mundo vegetal e com a própria natureza.
O último momento nos leva a observar um antigo casarão, o Casarão da Várzea, abandonado há mais de dez anos, símbolo de resistência cultural do bairro homônimo. As imagens das paredes, dos fungos e das marcas evocam a ideia de que a vida acontece também nos lugares de abandono, decomposição e ruína.
Ao observar “as peles das casas, hospedando rastros e marcas”, a carta nos leva a perceber o ambiente como corpo vivo, habitado por histórias e transformações, e a arte como forma de aprender com os processos de mudança, decomposição e resistência. A última carta traz consigo uma pequena fotografia de ervas daninhas sob o concreto de um prédio, que singulariza as rotas para podermos pensar nessas existências mais que humanas. O trabalho ONDE A VIDA INSISTE encarna a insistência em como organismos vivos crescem, se associam e respiram juntos.










