DESALINHAVAR JUNINO: QUANDO O PENSAMENTO DE CONCURSOS INVADIU AS QUADRILHAS JUNINAS NA ESCOLA?

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Imagem – Arquivo Pessoal
Por Domingos Jr
Multiartista e professor da ETE Professor Francisco Jonas Feitosa Costa, em Arcoverde (PE)
Sempre quando penso em memória, penso no mês de junho. Um trimestre anterior ao próprio junho. Seis meses antes do mês de junho, até completar uma volta inteira no círculo do tempo de um pensamento que permeia minha cabeça desde criança.
Me apaixonei pela quadrilha junina muito cedo. Paudalho, cidade de onde venho, na Zona da Mata de Pernambuco, sempre respirou quadrilha. Rinchas, disputas em grupo, divergências pessoais e tensões sexuais sempre se resolviam na quadrilha. Ora uma disputa entre quadrilhas diversas; ora o desmanche de grupos consagrados por falta de incentivo financeiro.
Havia uma diversidade de grupos em suas variadas estruturas — estéticas, coligações políticas, coreografias e gritos de guerra. Dançavam-se quadrilhas da zona rural e da urbanidade interiorana no mesmo arraial. Via-se nas quadrilhas escolares um espelho das estruturas sociais.
As quadrilhas de escolas privadas tinham figurinistas que definiam os figurinos de todos os integrantes da quadrilha e de outras manifestações populares juninas. Já nas escolas públicas, via-se uma diversidade de vestimentas: a combinação coringa da camisa xadrez com calça jeans; calçados diversos entre tênis, alpercatas de couro e de plástico; outras pessoas mais produzidas, com babados e golas de vestidos que pareciam grandes almofadas. Ah, tranças e chapéus de palha, por favor.
Recentemente, voltei para a sala de aula, mas agora como professor em Arcoverde. Finalmente chegou o período junino. Se você não conhece o ritmo de Arcoverde nesse período, precisa tirar um tempo para visitar. O alunado possui referências preciosas do forró. Seus olhos brilham quando falamos de quadrilha junina. Quadrilheiros e quadrilheiras confessos e orgulhosos quando perguntados se ali existem pessoas que dançam quadrilha. Curiosos em saber como ingressar em quadrilhas juninas. Adolescentes que compõem os quadrados das juninas da cidade, dentre elas a Portal do Sertão, campeã brasileira de 2025.
O São João é esperado com ansiedade. Na sala dos professores, já existem organizações fraternas para vivenciar alguma atração da programação da cidade, que dura dezesseis dias. Alunas calculando suas faltas para não serem reprovadas no período junino. Estratégia bem pregada. Viver o forró nos fortalece como povo. Como deixar de viver o maior movimento cultural da cidade? Perder atrações escutadas durante o ano inteiro ao vivo? Conhecimento se faz vivendo. Imagine essa efervescência da cidade ocupando a escola.
Cada turma fica com um ritmo específico: entre xote, baião, xaxado, ciranda e quadrilha. Essa, por sua vez, fica a cargo dos terceiros anos. As famosas quadrilhas do terceirão. O ritual se estabelece: ensaios, decisão entre equipes já realizando produção cultural, escolha de padrinhos e madrinhas das turmas, decisão de coreografias. Decisões juninas.
E dentre elas, a decisão de alugar figurinos a grupos profissionais da cidade e de cidades adjacentes. Decisão inteligente, que faz parte da economia criativa do ciclo. Como toda aglomeração de pessoas, nem todas conseguem custear o figurino e acabam desistindo de dançar. Além disso, existe uma preocupação incessante de alguns em encontrar pares para montar o quadrado. Esse cálculo não vai fechar. Como precisar de integrantes e, ao mesmo tempo, ver aqueles que querem participar desistirem por não possuir o valor necessário para alugar figurinos profissionais?
Figurino revela nossa personalidade, nossas subjetividades e nossas habilidades também. Idealizar o lookinho para ir ao forró é se colocar de maneira presente consigo naquele espaço de encontros agradáveis e desagradáveis. Isso me lembrou imediatamente algumas fotografias do arquivo da quadrilha Rosa Linda, Linda Rosa. Considerada a mais antiga do estado, possui em seu arquivo as variações estéticas na composição do espetáculo ao longo dos anos.
Iniciada como uma manifestação de comemoração da matriarca Elvira Gusmão, percebe-se, nas fotografias da década de 1980, pessoas vestidas de maneira diversa. Conhece-se algo sobre aquela pessoa fotografada, nem que seja sua decisão de se apresentar com aquele traje. As quadrilhas podem estar vestidas de maneiras diversas, respeitando tanto estruturas coreográficas tradicionais quanto estilizadas.
Entrando em contato com o arquivo fotográfico da Rosa Linda, Linda Rosa, percebi que a quantidade de integrantes dançando quadrilha era muito maior. As roupas do cotidiano se transformavam em trajes juninos. Em possibilidade de colocar o corpo para dançar, se permitir a relação e compreender o contato. Quadrilha junina precisa de, no mínimo, duas pessoas se encontrando para dançar. As histórias circulam em torno de um casamento. Individualmente também se dança quadrilha — o que são as rainhas rodando o salão sozinhas em forma circular? — mas alguém precisa encontrar alguém.
A Rosa Linda, Linda Rosa completa, neste ano de 2026, meio século de resistência. Como o pensamento de atravessar o tempo, com suas variações econômicas, políticas e sociais, nos ensina a colocar o corpo de nossos jovens das escolas públicas em divertimento presente na quadrilha junina sem que exista, entre eles, uma definição prévia de quem dança ou não por questões financeiras individuais?

Ano de 1982, Paudalho. Os figurinos eram compostos pelas famosas roupas de festa. Acessórios como lenços e chapéus apresentavam as personagens presentes no espetáculo. Da direita para a esquerda: cigana, personagem com lenço e rainha do milho. Meias brancas de cano curto, sapatos pretos fechados e uma alpercata aparentemente de plástico coexistiam na mesma quadrilha. Os signos das personagens surgiam através dos acessórios e das combinações possíveis com aquilo que cada integrante possuía para vestir.
Quadrilha junina é o coletivo caminhando para a mesma direção. Suas evoluções coreográficas convocam cada integrante a fazê-las em conjunto. Se um está fora, alguma integração naquele coletivo está dessincronizada.
Como dialogar com jovens do ensino médio de escolas públicas sobre a necessidade de sincronizar o coletivo de maneira democrática, sem apagar suas características individuais dentro dele? Será que alugar figurinos já prontos possibilita o encontro desse jovem com suas possíveis habilidades de compreender formas, cores, estilos e memórias através do figurino?
Cadê a brincadeira de customizar com o que se tem ou com o que se consegue emprestado? Como esquecer dos empréstimos honestos, nos quais se desenvolvem relações com o coletivo e suas integrações sociais?
Como se colocar em diálogo com esses jovens para que compreendam que só se alinhava com vários pontos costurados?
Quem já passou pela adolescência — e quem ainda está passando por ela — sabe que, nessa fase da vida, existem momentos em que não sabemos nem quem somos. Ter a quadrilha junina escolar como espaço de compreensão de si, através da brincadeira, pode ser um caminho para que dali saiam quadrilheiros e quadrilheiras que sigam sua vida profissional na cultura popular e encontrem suas identidades para além do profissional. Se perceber durante a brincadeira é um caminho brilhoso.

Na fotografia do ano de 1990, percebe-se jovens com camisas estampadas, calças jeans customizadas com tecido de chita e chapéus de palha com faixa azul em seu topo. Já as jovens vestem trajes distintos. Uma delas usa um cropped com babado branco e uma saia com faixa branca posicionada horizontalmente ao centro. As duas peças são confeccionadas no mesmo tecido xadrez vermelho e branco. A jovem calça um tênis vermelho fechado e meias brancas de cano curto. Na cabeça, uma flor vermelha; no pescoço, colares. A segunda jovem veste um vestido florido nas cores amarelo, vermelho e branco, também com babados. Calça um tênis preto fechado e meias brancas de cano longo com detalhes azuis. Na cabeça, um chapéu de palha com babado no mesmo tecido do vestido.
Para compor quadrilhas profissionais com o tamanho exigido pelos concursos, é preciso desenvolver uma relação com a manifestação ainda nas escolas. Se você pergunta a uma pessoa se ela já dançou quadrilha, em sua grande maioria a resposta será: “Só a da escola!”. Não se permitir dançar por falta de verba para o figurino é esquecer que as quadrilhas já não pertencem às cortes colonizadoras. De origem europeia, as quadrilhas vieram para o Brasil através dos portugueses com suas invasões.Mas, aqui, no Brasil, ela é composta pelo povo…e tudo melhorou esteticamente.
Precisamos enxergar a juventude para além das pré-formas entregues pelos algoritmos. A geração da tela, às vezes, se desconecta dela mesma. Não se permite experimentar outras relações com os próprios corpos.
Imagina uma quadrilha composta por vestimentas do universo da vaquejada, tão presente no sertão? Ou quadrilhas produzidas por costureiras conhecidas nos bairros? Ou, ainda, não abandonar a camisa xadrez e a calça jeans?
Entre questionamentos desenfreados ao perceber essa nova realidade, lembro-me de quando era aluno, quadrilheiro e defensor das quadrilhas juninas desde criança. Penso: e se existisse uma política pública que garantisse o aluguel dos figurinos para alunos e alunas sem que eles precisassem desistir por falta de recurso? E se existissem editais voltados para o ciclo junino nas escolas que garantissem também apresentações de quadrilhas profissionais nesses espaços? E se as quadrilhas que aprovam projetos culturais tivessem como exigência a realização de uma sessão do espetáculo em escola pública, possibilitando acesso, difusão e conhecimento de identidade em conjunto?
São tantos questionamentos. Às vezes, é difícil ter lua em gêmeos e mercúrio em leão.

Já em 1994, aparecem jovens com calças jeans e camisas estampadas. Um deles usa um chapéu de palha vermelho; o outro, um chapéu preto. O rapaz de chapéu preto veste ainda suspensório e cinto brancos, além de uma gravata listrada. Não há um padrão pré-estabelecido nos figurinos. Também aparecem duas jovens. Uma delas veste um vestido branco, representando a noiva, com um pequeno arranjo de flores brancas na cabeça. A segunda usa um vestido estampado nas cores vermelho, branco, azul e amarelo, também com babados. Na cabeça, um chapéu vermelho semelhante ao de seu par. Ao fundo, percebem-se integrantes com roupas lisas de alfaiataria. Os figurinos são heterogêneos, possibilitando enxergar cada integrante através de suas próprias escolhas estéticas.
Mas não se encerra o fio do pensamento. Pensemos juntos: o programa Pé-de-Meia é uma política de incentivo financeiro voltada a estudantes do ensino médio público inscritos no CadÚnico, com o objetivo de reduzir desigualdades sociais e estimular a permanência escolar. Estudantes do ensino regular recebem R$ 200 mensais, com possibilidade de saque imediato mediante comprovação de frequência, além de R$ 1.000 ao final de cada ano concluído. Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), o incentivo é de R$ 200 pela matrícula e R$ 225 pela frequência. O programa ainda oferece R$ 200 adicionais pela participação no Enem, podendo totalizar até R$ 9.200 ao final do ensino médio.
Além da experiência como professor em Arcoverde, já lecionei a disciplina de figurino e cenário em um programa desenvolvido pelo grupo Neoenergia anos atrás. Foi na quadra de uma das escolas incentivadas pelo projeto que percebi alunas com saias de quadrilhas profissionais. Os valores tanto de Recife quanto de Arcoverde são semelhantes. O aluguel dos figurinos varia entre R$ 120,00 e R$ 150,00. Quase o valor total do recebimento mensal do Pé-de-Meia. Ou seja, é justificável que um aluno ou aluna desista de dançar quadrilha na escola porque esse valor pode ser destinado a uma urgência em sua residência.
Como garantir o acesso democrático à manifestação da quadrilha junina na escola se não for olhando para trás e aprendendo com grupos mais antigos maneiras de manter viva a tradição?
Talvez desalinhavar junino seja desorganizar a quadrilha para que ela volte a caber no povo. Alinhavar é possibilitar caber em mais corpos. Entender que antes do figurino pronto existiam o alinhavo, o improviso, o empréstimo e a vontade de brincar junto. Porque, no fim, alguém ainda precisa encontrar alguém para dançar.












