Crítica – BOLOR | A Estética da Precariedade

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Imagem – Morgana Narjara
Por Inaê Silva e Thereza Larissa Moura Lemos de Barros
Bolor é um espetáculo de dança que propõe uma travessia entre corpo, matéria e história. Criado por Guilherme Allain, Isabela Severi e Gabi Holanda, o trabalho estreou em julho de 2025 através do edital Solo do Outro, voltado para a ocupação do Teatro Apolo Hermilo Borba Filho, no Recife. O edital convocava propostas que dialogassem com obras de Hermilo Borba Filho, em articulação com outros autores sugeridos pelo próprio edital.
Um dos nomes indicados foi Gilberto Freyre, intelectual central na formulação da ideia de identidade pernambucana, mas também símbolo de uma visão romantizada e elitista burguesa — um olhar que suaviza as violências da escravidão e das hierarquias coloniais.
A partir desse ponto de partida, os artistas decidiram unir suas pesquisas individuais, aproveitando a oportunidade de criar algo em conjunto. O ponto de convergência surgiu da obra Açúcar, de Freyre — um livro de receitas coloniais que transforma o açúcar em símbolo afetivo e cultural, apagando as dimensões humanas e ecológicas da exploração canavieira.
Bolor nasce, então, como contraponto crítico a essa narrativa, dialogando com pensadores como Malcom Ferdinand e Anna Tsing, que refletem sobre o sistema de plantation e suas marcas no corpo e no ambiente. A plantação de cana-de-açúcar em Pernambuco é, nesse sentido, um território exemplar, o início de uma estrutura de monocultura e escravidão que moldou não só a economia, mas também as subjetividades e relações sociais do país. Além da escolha temática, o trabalho também se constrói a partir da diversidade de formações e trajetórias dos intérpretes-criadores.
Gabi Holanda inicia sua trajetória no teatro, é formada em Artes Cênicas e, posteriormente, envereda pela dança, desenvolvendo um corpo de atuação que transita entre o gesto e a palavra. Isabela Severi, por sua vez, vem da dança clássica, mas direciona sua pesquisa para a dança contemporânea e a performance, tensionando técnica e presença. Guilherme Allain é graduado em Comunicação e aproxima-se da dança e da performance como linguagem crítica e política. Essas formações distintas se encontram em Bolor como um campo de experimentação coletiva, onde os corpos elaboram diferentes modos de pensar e sentir a herança colonial.
A criação foi desenvolvida entre março e julho de 2025, no próprio Teatro Apolo Hermilo, em meio às condições materiais limitadas que marcam a produção artística local. Embora o edital previsse um diálogo com uma obra de Hermilo Borba Filho, os artistas escolheram como referência a peça Sobrados e Mocambos, em que Hermilo realiza uma releitura crítica da obra de Freyre. Enquanto Freyre celebra uma “civilização açucareira”, Hermilo a desmonta com ironia e contundência.
Inspirando-se nessa relação, o trio propõe sua própria releitura — uma resposta corporal e simbólica à herança colonial e às formas de poder que se perpetuam. O trabalho se constrói como metáfora de decomposição e transformação, colocando o bolor como imagem central: o fungo que cresce sobre a superfície do açúcar e o faz apodrecer.
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Os artistas se perguntam: como fazer o açúcar apodrecer? Como transformar o que foi símbolo de poder e opressão em outro tipo de matéria, em outro corpo possível? Essa pergunta guia o trabalho e atravessa suas escolhas cênicas, estéticas e políticas. Bolor é composto por três prelúdios, inspirados na estrutura teatral de Sobrados e Mocambos, em que cada início de ato é introduzido por um texto. Aqui, os artistas substituem o texto por receitas — a receita do bolo, a receita da plantation e a receita dos fungos — que funcionam como camadas simbólicas e estruturais da obra.
A primeira cena evoca o universo colonial: figurinos inspirados em roupas de época, uma mesa, gestos contidos e ritualizados. Um dos intérpretes senta-se, toma chá, come bolo, adoça o café — ações simples que se tornam dança. O gesto cotidiano se transforma em ritual, revelando um corpo que carrega o passado e o confronta com ironia e desconforto.
Na cena da plantation, os artistas atravessam o espaço de uma ponta a outra do palco em movimentos vigorosos, bruscos e contínuos, com gestos inspirados em lutas e resistências corporais. Essa travessia coreográfica é uma metáfora do trabalho físico e do corpo que resiste — um gesto ancestral que ecoa as forças e as dores da escravidão. A fisicalidade intensa e a repetição exaustiva constroem uma paisagem de tensão, força e resistência.
A cena seguinte traz a imagem do açúcar sendo espalhado pelo chão, demarcando o território. Um corpo masculino se exaure enquanto derrama o açúcar — metáfora direta dos corpos que plantaram, colheram e morreram nesse ciclo. Logo após, uma das intérpretes entra com um bolo de terra e o oferece ao público. O gesto de partilha se torna um gesto de denúncia: o alimento é também ferida.
Na última parte, os corpos se transformam novamente: figurinos brancos, cordas suspensas e movimentos que remetem a fungos e rizomas. A decomposição torna-se criação; o bolor, agora visível, se transforma em corpo expandido. As cordas funcionam como micélios — teias de interdependência e sobrevivência. O espetáculo se encerra com os corpos suspensos, entrelaçados, compondo uma imagem que é, ao mesmo tempo, ruína e germinação.
O trabalho apresenta uma pesquisa potente e sensível, articulando corpo, imagem e crítica histórica a partir de uma abordagem simbólica e poética do açúcar como matéria e metáfora. Ainda assim, emergem algumas fragilidades dramatúrgicas — especialmente na costura entre as cenas e na consolidação de uma narrativa mais coesa. Tais questões, no entanto, não podem ser analisadas sem considerar o contexto material de criação: a precariedade de tempo e de verba oferecida pelos editais públicos.
O projeto foi desenvolvido em um curto período, entre março e julho, com recursos limitados, o que inevitavelmente impacta o processo de maturação de uma obra que demanda experimentação, ensaio e revisão constante. Essa urgência de produção — imposta por prazos institucionais — tende a restringir o aprofundamento das escolhas cênicas, forçando artistas a estrearem trabalhos ainda em processo, sem a plenitude estética e a técnica que a pesquisa propõe.
Bolor reflete, assim, não apenas um mergulho estético e conceitual nas camadas simbólicas da cana-de-açúcar, mas também as condições materiais que atravessam a criação artística no Brasil. É quase uma metáfora da própria precariedade: um trabalho que se ergue entre a decomposição e a reinvenção, revelando tanto a potência inventiva de seus criadores quanto os limites estruturais de um fazer artístico que insiste em existir.












