Crítica – Corpos | Relacionamento com o corpo

|
Ouça essa notícia
|
Imagem – David Pochal
Por Maria Clara Costa Lima e Maria Cecília Dias Ferreira
A performance Corpos da companhia francesa La Mangrove, compôs a programação do 28° Festival Internacional de Dança do Recife em parceria com o consulado francês. Apresentada no Teatro do Parque, na noite de 23 de outubro, a performance traz a conversa com o público de diversas formas mostrando o corpo diário, aquele que luta, ama, se relaciona, fica exausto e que sofre racismo. Assinam a concepção e a coreografia Hubert Petit-Phar e Augusto Soledade.
A performance se inicia com duas cadeiras no canto inferior esquerdo do palco e quatro corpos pretos masculinos em posições distintas. Eles executam um conjunto de movimentos em sincronia, sem acompanhamento sonoro, fazendo com que o público escute apenas passos e respiração. Logo após é, dividem-se em duplas, enquanto uma dupla descansa na cadeira, a outra dupla realiza uma sequência sincronizada na diagonal do palco, em seguida as duplas trocam os papeis, revelando distintas formas de relacionamento dos dançarinos.
As cadeiras em cena aludem ao corpo cansado, pois nela, os corpos desfalecem em busca do descanso necessário. o objeto representando a busca de algo, porém a imagem deste personagem não está clara, em outro momento, quando Em certo momento, os dançarinos ficam no fundo do palco sob um jogo de luz específico, se em algum momento houve a alusão à construção de um personagem, agora nada específico é transmitido ao público nesse sentido, e este fica livre a seu próprio imaginário e construção de sentidos.
Um momento que causou incômodo no público, foi quando os dançarinos, no palco, recitam textos diferentes ao mesmo tempo, sem auxílio de microfone, as diferentes palavras e sons se imbricando sem que seja possível compreendê-las. Aos poucos os balbucios revelam uma língua que não é o português. “A história do Sebastião é aquele bailarino que fica pronunciando falando alto, ele trouxe o texto para o projeto, mas toda vez que eles fazem é o mesmo texto, eles improvisaram na hora, fizeram a brincadeira em conjunto, mas depois eles repetem sempre o mesmo texto”, quem nos revela a informação é Petit-Phar, referindo-se a Sebastião Abreu, um dos performers em cena, em entrevista concedida.
A performance traz uma representatividade negra, os quatro dançarinos em cena são negros, cada um apresentando sua particularidade em relação aos estilos dançados, como o Voguing, a capoeira, entre outros, o que gera no olhar do público uma leitura de resistência, de pertencimento, de identidade. “Antes de começar eu já tinha essa ideia na minha cabeça, eu tinha a ideia do movimento, mas também me adapto à personalidade do bailarino”, afirma Petit-Phar.
Em cena, três dos performers começam a tocar o cabelo do quarto dançarino. Logo após os toques, eles começam a puxá-lo pelos cabelos, forçando-o a algo, enquanto ele luta para ser solto; inevitavelmente, a cena conduz o espectador à escravidão. Após solto, ele se mantém em estado de luta, arruma os cabelos e sua expressão corporal nos afirma: posso fazer o que quiser, ser quem quiser, da forma que quiser! O performer desce do palco interagindo com o público, trança com trança, corpo com corpo, alma com alma.
Na entrevista realizada após a performance, Petit-Phar revelou que vem trabalhando nesta obra desde a pandemia do Covid-19, totalizando 5 anos de apresentações desde seu início. O trabalho foi feito para ser sempre interpretado por quatro dançarinos: “sempre foi um quarteto, mas iriam ser dois guadalupianos e dois brasileiros, mas por conta da Covid, ficaram três brasileiros e um guadalupiano”. Em Corpos, cada detalhe foi pensado para transmitir esse corpo preto que luta constantemente. Petit-Phar afirma:
É então, eles falam muito da relação do corpo com o homem preto, então assim, os dois coreógrafos são pretos, todos os bailarinos são pretos, então eles tinham esse conceito por trás que é falar sobre essa corporeidade, porque o homem preto é violento, esse conceito era bem trabalhando tanto da equipe quando da desconstrução desse corpo, desse homem.
O figurino é assinado por Alex Lago, que também é dançarino no trabalho. Lago é designer, e buscou trazer significado para cada corte das peças vestidas em Corpos. O figurino inicial é formado por calças, a seguir, os dançarinos vestem saia/calça que lhes proporciona um movimento específico ao dançarem, nem tão leve a ponto de flutuar, nem pesado a ponto de ceder, essa provocação é trazida à cena a partir do figurino. Na dança entre dois homens, qual seria a quebra de paradigmas que estão querendo inaugurar aos olhos da plateia? As bocas não falam, mas os corpos expressam. Por Lago:
E aí foi pensando sobre, o jeans, sobre os tecidos que poderiam ser utilizados, o peso do tecido ,e às vezes também sobre provocar, né? Sobre o que a gente vai trazer para a cena que não seja assim tão direto: eu vou usar essa roupa porque ela é leve para mim, não, se o tecido é pesado, o que eu posso fazer? Trazer outras coisas que possam provocar, surgir.
A performance vem acontecendo em diversos países, como França, Caribe, Guiana, Guadalupe, e agora, Brasil. A cada local diferente, uma nova experiência e novas formas de dançar uma mesma performance. Os dançarinos relatam a experiência de terem dançado sob forte chuva, enquanto o público permanecia com eles assistindo, fato que impactou a plateia, agregando peso e significado a seus movimentos e palavras.
Algumas partes da performance não são tão claras para o espectador e causam certa estranheza. Embora consideremos que a fruição de um espetáculo não tem a ver com o público “entender”, paradoxalmente, admitimos que, em determinados momentos, talvez isso fosse esperado por parte dos performers, o que não ocorreu. O que não chegou a comprometer a obra como um todo. A performance vem para incomodar.












