Crítica – Ris(c)o | O corpo em diáspora no espaço urbano

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Imagem – Divulgação
Por Bruno Augusto e Guilherme Urbano
Apresentado na praça da Várzea, Recife-PE, no dia 1º de novembro de 2025, o espetáculo Ris(c)o, do Coletivo Rasura, composto pelas artistas Gabi Carvalho, Mayara Ferreira e Yanca Lima, propõe uma reflexão sensível e potente sobre o corpo, a rua e a dança. A obra se constrói como um gesto de rasura e reescrita, traçando linhas que atravessam tempo, memória e território. A rua é o palco e a força motriz da criação, transformando o espaço público em campo de experimentação estética, política e poética.
A partir dos saberes corporais das intérpretes e das manifestações culturais presentes na rua, Ris(c)o revela a diversidade de formações das artistas, que transitam entre danças de rua, danças afro-brasileiras e suas referências acadêmicas. Essa pluralidade traz à obra uma expressividade singular, em que a técnica não se impõe como forma rígida, mas como meio de diálogo com o tempo e com a diáspora do corpo. O corpo em diáspora, conceito que atravessa a cena, é compreendido como território de memória, resistência e ancestralidade, corpos que riscam o mundo com suas histórias e fazem da existência um ato político.
É possível perceber como o espetáculo Risco incorpora o princípio da rua como espaço simbólico e epistemológico de encontros, travessias e reinvenções. Na rua, diferentes tempos e saberes se cruzam, revelando uma pedagogia que se constrói na experiência, na oralidade e na ancestralidade. O mover das danças populares pelas artistas torna as ruas linhas de memórias, produzindo conhecimento. A artista Gabi Carvalho trama-se pela dança popular, formada em violão popular, está todo o tempo em contato com danças populares como frevo, caboclinho, dentre outras. Mayara Ferreira contempla, em suas andanças, as danças afro-brasileiras e africanas. Yanca Lima pesquisa o frevo e a capoeira em seu corpo, tendo transitado por outros grupos em diversos espetáculos; todas as artistas têm em comum a Licenciatura em Dança na Universidade Federal de Pernambuco.
A improvisação em Ris(c)o surge como ferramenta central do processo criativo, evidenciando a relação entre corpo e cidade. As artistas reinventam o passado, moldam o presente e projetam o futuro, convidando o público a participar dessa escrita viva que se desenha no espaço urbano. O uso de sons ao vivo e músicas pré-programadas com referências ao frevo, caboclinho, maracatu e brega funk, ampliam o caráter híbrido e plural da obra aproximando o espetáculo da escuta cotidiana da cidade. Em determinados momentos as interações com o público reforçam o sentido coletivo e compartilhado da experiência. Ao deslocar o olhar sobre o que constitui um palco e sobre o que define a arte da dança, o Coletivo Rasura nos leva a repensar a própria noção de espetáculo. Ris(c)o ultrapassa as fronteiras da cena tradicional e reafirma a rua como espaço legítimo de criação, memória e resistência.
O resultado é uma obra que mobiliza corpo e pensamento, provocando o espectador a compreender a dança não apenas como performance estética, mas como prática viva de existência, identidade e transformação social.
Referências
[1]GABI Carvalho, MAYARA Ferreira, YANCA Lima. Espetáculo Rasura, 01 de Novembro de 2025. Acesse textos, fotos, áudios e vídeos AQUI
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2019.
RUFINO, Luiz. Pedagogia das encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2019.
Nota de Rodapé
[1] Entrevista de comunicação com as artistas do Coletivo Rasura, link segue registros em imagem e áudio completo acerca do espetáculo Risco.











