Entrevista – Comida, Canto e Reza | Cia do Tijolo

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Imagem – Alécio Cezar
Mais de um século depois da destruição de Canudos, a Cia. do Tijolo retorna ao episódio para deslocar o olhar do massacre e das figuras consagradas pela historiografia para as pessoas que construíram o cotidiano de Belo Monte.
Vencedor do Prêmio APCA de Melhor Direção, Restinga de Canudos recupera histórias de professores, agricultores, indígenas, beatos, cantadores e outros moradores anônimos, apresentando Canudos não apenas como cenário de guerra, mas como experiência de convivência, resistência e invenção coletiva. Com criação e dramaturgia de Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante e direção de Dinho Lima Flor, o espetáculo combina teatro, música ao vivo, poesia e elementos da cultura popular brasileira.
Na entrevista realizada por Márcio Andrade, a companhia reflete sobre a decisão de devolver protagonismo aos habitantes de Belo Monte, a disputa pelo direito de narrar a própria história e a presença do pensamento de Paulo Freire em sua pesquisa. A conversa aborda ainda a música como elemento estruturante da dramaturgia e a tentativa de recuperar, para além da violência que marcou a memória de Canudos, suas formas de solidariedade e organização popular.
Fundada em 2008, a Cia. do Tijolo desenvolve uma pesquisa que articula teatro, música e poesia para revisitar personagens e episódios da história brasileira. De Concerto de Ispinho e Fulô, inspirado na poesia de Patativa do Assaré e na memória do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, a Restinga de Canudos, a companhia encontra na cultura popular e na ética freiriana caminhos para pensar memória, resistência e formas coletivas de existência.
A Guerra de Canudos costuma ser lembrada pelo massacre e pela figura de Antônio Conselheiro. O que motivou a companhia a deslocar o olhar para os personagens anônimos e para o cotidiano de Belo Monte?
Restinga de Canudos continua mergulhando forte no acontecimento do massacre de canudos e na trajetória de Antônio Conselheiro, esse líder popular, consciente, forte e misterioso. Mas para além desses dois assuntos fundamentais, era preciso alargar a percepção sobre o tema.
Uma luta do porte de Canudos, travada por um povo que venceu três vezes o exército da república, executando táticas surpreendentes na defesa do arraial, com força e coragem imensas para defender sua terra, suas crenças e seus espíritos guerreiros, só foi possível porque aquele povo era uma junção de muitos povos, gente de muitas experiências diferentes, gente carregando muito sofrimento nas costas, muita dor, muita resistência, muita fé e amor também.
O povo indígena, os caboclos, o povo negro, os brancos famintos, as crianças e os velhos: era essa gente que habitava Canudos, um caldo de sabedorias diversas que sabiam que a quela coisa, essa tal república, não ia dar certo para eles. Foi desse povo que nasceram bons estrategistas, gente que pensava nas táticas de emboscadas e gente unida na vontade.
Portanto, depois de tudo isso, depois de todas as reflexões nascidas nos ensaios, era impossível não falar desse povo, era impossível não os colocar como os protagonistas da peça. Porque Antônio Conselheiro estava junto das pessoas. Todo mundo vivia perto dele. Aquele não era um projeto individualista de um homem sozinho. Como disse um dos remanescentes de Canudos: tudo era de todos e nada era ninguém.
Duas professoras conduzem a narrativa do espetáculo. Qual o significado dessa escolha e como ela dialoga com o pensamento de Paulo Freire, que atravessa a pesquisa da Cia. do Tijolo?
Essas duas professoras, Marta Figueira e Maria Francisca Vasconcelos, faziam parte dessas andanças do Conselheiro junto do povo que migrava para Canudos na procura de uma brecha para uma vida melhor. Foram convidadas pelo Beato para dar aulas. Em Canudos, havia uma rua chamada Rua das Professoras, onde elas exerciam seu papel amoroso do ensino. Não era um saber vindo de fora.
Na peça, as atrizes Karen Menatti e Odília Nunes dão vida às professoras, apresentando um panorama do século 19. Contam, à contrapelo, a história de Belo Monte. Essa história é muito importante para que a gente possa entender a violência do século 20 até os nossos dias. No espetáculo, elas disputam com Euclides da Cunha o direito de narrar a própria história.
Convidamos para participar de uma das cenas a professora da Escola Nacional Florestan Fernandes, Silvia Adoue, uma estudiosa sobre Canudos. Paulo Freire é fundante nessa concepção de educação que concebe o saber, não como um depósito de conhecimentos de especialistas competentes, mas como processos de formação que respeitam os saberes das gentes.
Canudos não precisou de generais, muito menos de geógrafos para, a partir do conhecimento de seu território, preparar sua resistência. Essa resistência só foi possível porque havia ali um saber. Com Paulo Freire, porque a gente aprendeu a ser ator e espectador ao mesmo tempo, aprendemos a estar atentos aos tempos, lutar por causas bonitas e justas. A gente canta e come junto com o público. Chora e ri junto. É um ato amoroso, um convite para que as pessoas entrem em nosso barco navegante chacoalhado pela tempestade da história.
A companhia costuma reunir teatro, música, poesia e elementos da cultura popular brasileira em seus trabalhos. Como essas linguagens dialogam em Restinga de Canudos e qual foi o papel da música na construção da dramaturgia?
Somos um grupo que gosta de cantar, dizer poesia, tocar instrumentos, se deliciar com o Brasil popular que requebra e canta muito! A música é a via principal, a argamassa que nos une numa mesma experiência. Além disso, também exerce um papel de narradora. Temos o compositor Jonathan Silva no grupo que, além da beleza das melodias e letras, traz uma espécie de síntese dramatúrgica para a cena.
Quando, nos ensaios está tudo confuso, Jonathan traz uma música e tudo se encaminha. Em Restinga de Canudos a gente canta Belchior e Zé de Teté, um poeta da mata norte pernambucana. Depois Jonathan Silva começou a compor as músicas originais da peça.
Em vez de apresentar Canudos apenas como uma tragédia histórica, o espetáculo evidencia formas de convivência, solidariedade e invenção coletiva. Que aspectos dessa experiência vocês acreditam que continuam inspirando o Brasil de hoje?
O Brasil está cheio de experiências bonitas. Os movimentos populares, os movimentos sociais sempre nos inspiram. São eles que, com seus cantos, com suas místicas, lutam pela a terra, pela agricultura familiar e defendem a natureza como bem comum. É muita coisa bonita para se inspirar.
Nosso primeiro ato é compartilhar a comida, um cuscuz de quase três quilos, feito minutos antes da plateia entrar. Dizemos com esse ato que antes de ser guerra, Canudos era comida, canto e reza. Um encontro dos comuns em comunhão: o comum comigo, o comum contigo, o comum com nós todos.
A Cia. do Tijolo desenvolve, há quase duas décadas, uma pesquisa sobre história brasileira a partir das vozes que normalmente ficam à margem dos relatos oficiais. Como Restinga de Canudos dialoga com os trabalhos anteriores da companhia e quais novos caminhos ele inaugura?
Como dizia o poeta criador do Teatro Vento Forte, Ilo Krugli, nosso mestre, a gente sempre se continua. Somos movimento. Mas temos um norte ético/estético que orienta o curso desse rio que vem de longe. Paulo Freire e a poesia de Patativa do Assaré estão na origem de tudo. A poesia “popular” e a ética freiriana permanecem. Depois, vieram Garcia Lorca, Dom Helder Câmara, Maria Valéria Rezende…
Em nosso primeiro espetáculo, Concerto de Ispinho e Fulô, colocamos em cena Patativa do Assaré denunciando o massacre da comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, no Crato, Cariri cearense. Caldeirão foi uma das muitas comunidades comandadas por beatos que, ancorados no catolicismo popular, criaram comunidades de trabalho compartilhado. Eram chamadas experiências de comunismo primitivo.
Caldeirão foi bombardeado. Um massacre quase que totalmente desconhecido. Caldeirão da Santa Cruz do Deserto é filho de Canudos. De Patativa a Conselheiro permanece a confiança nas formas de auto-organização popular, um respeito aos saberes múltiplos e o desejo de celebrar o lado vitorioso de experiências interrompidas pelo autoritarismo.
Em termos de caminhos novos, Restinga de Canudos inaugura uma reflexão mais aprofundada sobre o tempo presente. Um espetáculo que pretende explorar os resultados das crenças positivistas que orientaram a fundação de nossa república e as contradições da “religião” capitalista, que, cegamente, continuam apostando em ideias como crescimento e progresso.













