Entrevista – Bando de Palhaços | Riso que Desarma

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Imagem – Roberto Carneiro
O Bando de Palhaços chega a 2026 celebrando um dos momentos mais importantes de sua trajetória. Fundado em 2010, no Rio de Janeiro, o coletivo acaba de conquistar o Prêmio APTR de Melhor Espetáculo com Como nos Livros, montagem dirigida por André Paes Leme e escrita por Cecilia Ripoll, tornando-se apenas o segundo grupo ligado à pesquisa da palhaçaria a receber a principal premiação do teatro carioca em vinte anos. O reconhecimento reafirma um percurso de mais de quinze anos dedicado à criação coletiva, ao humor e à investigação das múltiplas possibilidades da linguagem do palhaço no teatro contemporâneo.
Na entrevista ao Quarta Parede, o Bando reflete sobre o processo de criação de Como nos Livros, espetáculo que transforma traças habitantes de uma biblioteca em observadoras da condição humana para discutir temas como destruição, convivência, sobrevivência e as contradições do mundo contemporâneo.
O Bando de Palhaços é um coletivo teatral sediado no Rio de Janeiro que desenvolve uma pesquisa continuada em palhaçaria, teatro e criação coletiva. Formado por Tiago Quites, Ana Carolina Sauwen, Camila Nhary, Mariana Fausto, Pablo Aguilar, Filipe Codeço e Matheus Lima, o grupo construiu uma trajetória marcada por espetáculos como Adeus, Ternura, Jogo!, Rio do Samba ao Funk, Na Borda do Mundo, Sobre Narizes e Jalecos e Como nos Livros, além de oficinas, projetos em hospitais, escolas e outros espaços de formação artística, consolidando-se como uma das principais referências da palhaçaria brasileira contemporânea.
O Bando de Palhaços acaba de conquistar o Prêmio APTR de Melhor Espetáculo por Como nos Livros. O que esse reconhecimento representa para um grupo que vem desenvolvendo uma pesquisa contínua há mais de 15 anos?
Esse reconhecimento é de suma importância para a gente. Ele representa a valorização de uma história construída com muito trabalho, muita risada e muito suor também. É muito difícil manter um grupo artístico ativo no Brasil. As possibilidades de sustentação de um coletivo são escassas, então existe um esforço contínuo para abrir espaço para esse trabalho em meio a todas as demandas de sobrevivência que os artistas enfrentam.
Ao mesmo tempo, estar em grupo proporciona algo muito precioso: uma troca, uma escuta e um reconhecimento mútuo que dificilmente existem quando você se reúne apenas para fazer um espetáculo específico. O que sempre nos manteve unidos foi o amor pela palhaçaria e a certeza de que, mesmo quando alguns integrantes precisam se afastar por um período e depois retornar, existe um vínculo muito forte que permanece.
O prêmio chegou num momento muito especial. Ele nos deu fôlego, entusiasmo e também uma sensação de confirmação de um caminho que, muitas vezes, é atravessado por dúvidas e incertezas. Esse reconhecimento renovou nossa vontade de continuar, de recolocar o espetáculo em cartaz no Rio, buscar temporadas em São Paulo e imaginar novos projetos. Foi um prêmio que trouxe não apenas alegria, mas também impulso para seguir em frente.
Como nos Livros parte de uma premissa bastante inusitada: traças que habitam livros e discutem a condição humana. Como surgiu o interesse por essa metáfora e o que ela permite revelar sobre o nosso tempo?
O projeto original de Como nos Livros já partia do desejo de falar sobre a humanidade através dos bichos. A gente sempre acreditou que a palhaçaria permite esse tipo de deslocamento mais ousado, esse olhar que sai do lugar comum para observar o ser humano por outros ângulos.
Inicialmente, nosso interesse era falar até da cidade do Rio de Janeiro e das relações humanas a partir do universo animal. A ideia específica das traças veio da nossa dramaturga, Cecilia Ripoll, que tem uma relação muito forte com a palavra e com a literatura. Ela propôs essas criaturas que habitam os livros e, de certa forma, vivem cercadas pela palavra.
Quando essa ideia surgiu, a gente achou sensacional. As traças são bichinhos pequenos que comem, desgastam e transformam aquilo que encontram pelo caminho. E existe algo muito forte nessa imagem quando pensamos no mundo em que vivemos hoje. Estamos atravessando um momento em que a humanidade parece devorar a si mesma, seus recursos, suas relações e até as condições de sua própria sobrevivência.
O que nos interessava era justamente olhar para essas contradições sem fazer um discurso moralizante. Através do humor, do jogo e do olhar dessas pequenas criaturas, conseguimos abordar temas complexos e profundamente humanos, convidando o público a rir, mas também a refletir sobre o tempo em que vivemos.
O espetáculo foi escrito por Cecilia Ripoll a partir de um processo de criação coletiva. Como se deu o diálogo entre a dramaturga e os integrantes do grupo durante a construção dos personagens e da narrativa?
Acho que essa resposta já começa a aparecer um pouco na pergunta anterior, mas aprofundando: o texto foi escrito pela Cecilia fora da sala de ensaio, porém em diálogo muito próximo com o grupo durante todo o processo.
Ela mesma conta que, enquanto escrevia, já ouvia as vozes dos atores que fariam aqueles personagens. Acho que houve uma sensibilidade muito grande da parte dela para perceber camadas, possibilidades de jogo e características de atuação de cada integrante do Bando que poderiam ser aproveitadas na construção dessas figuras.
Não significa necessariamente que os personagens tenham relação direta com as personalidades dos atores. É algo mais complexo do que isso. A Cecilia identificou qualidades de presença, ritmos, modos de jogar e potencialidades cômicas que poderiam servir a cada personagem, e foi compondo a dramaturgia a partir dessas percepções.
Ao mesmo tempo, o texto não chegou pronto e acabado. Ele foi sendo construído ao longo do processo, indo e voltando entre a escrita e a sala de ensaio. A gente contribuía com ideias, experimentações, caminhos possíveis, e a dramaturgia se transformava a partir desses encontros.
O resultado é um texto que carrega muito fortemente a autoria da Cecilia — que tem uma escrita marcada por reflexões profundas sobre a condição humana — mas que também foi alimentado pelo humor, pelo jogo e pela linguagem da palhaçaria que fazem parte da trajetória do Bando de Palhaços.
O humor sempre esteve presente no trabalho do Bando, mas em Como nos Livros ele convive com temas como destruição, sobrevivência, convivência e contradição humana. Como vocês equilibram comicidade e reflexão em cena?
A gente acredita que a convivência entre humor e reflexão é sempre muito rica, porque o humor abre caminhos. Ele abre para o pensamento, para o afeto e para a escuta. Existe algo no riso que desarma as pessoas e cria uma disponibilidade para olhar para questões mais complexas.
Por isso, usar o humor como ferramenta de reflexão é um caminho que nos interessa há muito tempo e que o Bando vem investigando em diferentes trabalhos. No caso de Como nos Livros, o texto da Cecilia já trazia uma carga reflexiva muito forte. Ao longo do processo, fomos entendendo como jogar com esse material, como ampliar as camadas de humor, de comicidade e de relação com o público sem perder a profundidade das questões que o espetáculo levanta.
E esse é um processo que continua acontecendo. A gente acredita que o espetáculo está sempre em transformação. O teatro é vivo e cada temporada, cada espaço e cada momento que atravessamos nos fazem descobrir novos jogos, novas possibilidades de comicidade e novas formas de contar essa história.
O mais interessante é que, para nós, uma coisa não diminui a outra. O humor não enfraquece a reflexão. Pelo contrário: muitas vezes ele é justamente o caminho que permite que essa reflexão chegue mais fundo.
Além dos espetáculos, vocês também realizam ações formativas (como cursos e imersões em palhaçaria), projetos sociais (como projetos em hospitais, escolas, empresas etc.) e criaram até um podcast de contação de histórias (o Bando de Histórias). Como a incursão nesses outros espaços e suportes alimentam os processos de criação de vocês de maneira geral e também colaboram para a sustentabilidade do grupo como um todo?
Existe, de fato, uma questão de sobrevivência que, muitas vezes, nos leva a buscar outros espaços de atuação e outros caminhos para sustentar o trabalho do grupo. Mas, hoje, entre todas essas frentes, existe uma que ocupa um lugar muito especial para nós: a formação.
O Bando realiza oficinas continuadas de palhaçaria e também cursos mais curtos, e esses espaços se tornaram fundamentais para o nosso amadurecimento artístico. É ali que aprofundamos nossa pesquisa, afinamos nosso olhar comum sobre a palhaçaria e seguimos investigando juntos uma linguagem que pode ser entendida e praticada de muitas formas diferentes.
As oficinas são sempre conduzidas por integrantes do grupo, que vão se revezando e trabalhando em conjunto. Isso faz com que elas também sejam um espaço de troca entre nós. Ao ensinar, somos constantemente levados a refletir sobre nossa prática, organizar pensamentos e revisitar questões que atravessam nosso trabalho.
Além disso, acompanhar o processo de outros artistas é algo muito enriquecedor. Observar, dirigir, provocar e testemunhar a criação de outras pessoas também nos transforma como artistas e alimenta diretamente a nossa atuação.
E existe ainda uma dimensão muito importante: a gente acredita que a palhaçaria é uma linguagem múltipla. Ela pode estar no palco, mas também pode estar num hospital, numa escola, num podcast, numa empresa ou em tantos outros espaços de encontro.
O próprio Bando começou sua trajetória dentro de hospitais, então sabemos, pela experiência, que o palhaço tem uma enorme capacidade de se adaptar e transformar os contextos que ocupa. Por isso, acreditamos que não estar apenas no palco amplia a nossa experiência e nos faz muito melhores no palco. Quanto mais variados são os territórios que atravessamos, mais rica se torna também a nossa criação em cena.














