Entrevista – A estrada é o picadeiro | Cia. Circo Godot de Teatro

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Imagem – Walton Ribeiro
A Cia. Circo Godot de Teatro atravessa Pernambuco com o projeto Circo Godot – do Cais ao Sertão, circulação que leva a dez municípios um espetáculo construído no encontro entre teatro físico, palhaçaria bufônica e habilidades circenses. Em cena, Asaías Rodrigues e Charles De Lima interpretam Gatropo e Tropino, dois vagabundos que percorrem o mundo oferecendo suas patacoadas. Inspirada livremente em Pozzo e Lucky, de Esperando Godot, de Samuel Beckett, a dupla estabelece uma relação atravessada por poder, dependência e conflito, transformando a disputa entre opressor e oprimido em matéria para o humor e o jogo circense.
Na entrevista realizada por Márcio Andrade, a companhia reflete sobre os 16 anos de trajetória do Circo Godot, desde sua criação para apresentações a públicos de diferentes países até a atual circulação por Pernambuco. A conversa aborda o uso do gromelô como língua inventada, a construção dos personagens a partir de um processo de tentativas e erros e, sobretudo, a maneira como a itinerância transforma a própria cena: palcos, praças e outros espaços exigem dos artistas uma escuta permanente dos ritmos, silêncios, referências e particularidades de cada comunidade.
Criada no Recife em 2010 por Asaías Rodrigues, Quiercles Santana, Andrezza Alves e pelo circense italiano Damiano Massaccesi, a Cia. Circo Godot desenvolve uma pesquisa que articula teatro físico, circo e formas animadas. Além dos espetáculos, o grupo realiza ações formativas como a oficina Por Nada se Espera, entendendo a troca com artistas e comunidades como parte de sua própria investigação. Ao percorrer o Litoral, a Zona da Mata, o Agreste e o Sertão, a companhia reafirma o nomadismo não apenas como deslocamento, mas como princípio de criação.
A Cia. Circo Godot completa 16 anos de trajetória desenvolvendo uma pesquisa que aproxima teatro físico, habilidades circenses e formas animadas. Como surgiu a companhia e de que maneira essas diferentes linguagens foram se encontrando e constituindo uma identidade artística ao longo dos anos?
A Cia. Circo Godot nasceu em 2010 do desejo de dois artistas (o italiano Damiano Massachesi e o brasileiro Asaías Rodrigues; o primeiro ligado ao circo e o segundo, ao teatro), que juntos com Andrezza Alves e Quiercles Santana se viram com a incumbência de criar um espetáculo que unisse as habilidades dos dois artistas numa só narrativa, que tinha de ser ao mesmo tempo de curta duração, divertida e que a língua não fosse um empecilho à sua compreensão.
Isso porque o espetáculo deveria atender às demandas de uma grande empresa europeia de turismo, com clientes dos mais variados países e línguas: na mesma plateia estariam angolanos, turcos, coreanos, franceses, ingleses, argentinos, etc. Ou seja, foi daí que veio a ideia/necessidade de trabalhar com o gromelô, uma língua inventada, que pode ser muito bem “compreendida” por causa das ações dos artistas no palco, do contexto/situação e da entonação nas falas.
Tínhamos de atender, portanto, turistas em hotéis, navios e resorts. O espetáculo estreou na ilha de Creta e fez, logo de largada, Grécia continental, Itália, Tunísia e Argélia. Depois veio para o Brasil e fez algumas cidades do Nordeste e Sudeste, participou de festivais e ficou um tempo guardado na gaveta.
Na busca por criar um ambiente farsesco, com tempos e ações bem marcadas, o circo e o teatro, neste sentido, serviu de matéria prima para o desenvolvimento do roteiro. Aproveitamos ao máximo a palhaçaria bufônica, a gague circense, o palhaço sujo que não tem cara de palhaço, que veste roupas puídas, o palhaço estradeiro, estrangeiro, outsider, marginal.
A graça deveria nascer da conjunção do teatro e do circo, da cumplicidade dos atores, mas também do atrito das personagens, que desejam a todo custo o poder sem limites, que acaba se transformando no eixo principal da narrativa. É poético, engraçado e político, porque é sobre opressor e oprimido e o sonho deste em tomar o lugar daquele.
Circo Godot acompanha Gatropo e Tropino, dois bufões que vagam pelo mundo à procura de pessoas dispostas a assistir às suas patacoadas. Como surgiram esses personagens e de que maneira a relação entre eles (marcada por hierarquia, conflito, dependência e comicidade) orientou a construção dramatúrgica e circense do espetáculo?
Por um acaso, naquele período (2010), fazia pouco tempo que o diretor tinha lido “Esperando Godot”, de Samuel Beckett. As personagens do autor irlandês estavam ainda fresquinhas na sua memória. Então, daí veio a ideia de, inspirados em Pozzo e Luck, personagens do texto de Beckett, inventar um opressor e um oprimido absurdos.
O trabalho passou a se desenvolver, então, pautado no work in process (trabalho em processo): tentativas e erros sobre o tema; fazer algo e depois voltar umas casas e fazer esse algo de outro jeito; achar no espaço vazio, os contornos das possibilidades dos sons, das palavras initeligíveis, das fisicalizações das ações cênicas na sala de ensaios. E se divertir ao máximo com isso: com as repetições, com a incomunicabilidade, com os erros, acasos, soluções e falta de sentido, até que um sentido pudesse emergir dali. Montamos em 30 dias. Isso em 2010.
Em 2019, quando retomamos, não estávamos mais com Damiano. Veio Charles de Lima, um artista incrível, que logicamente alterou de forma substancial muito do que tínhamos na montagem original. Ele e Asaías têm outra química, com mais pólvora, com risco iminente de “virada de mesa”, o que deu um caldo mais “ameaçador” à trama.
O projeto Circo Godot – do Cais ao Sertão percorre dez municípios de diferentes regiões de Pernambuco. Como o caráter itinerante e o encontro com públicos e territórios tão diversos interferem no espetáculo? O que se transforma na cena quando ela passa a ser atravessada pelas particularidades de cada lugar?
A nosso ver, a mudança constante de território tensiona a dinâmica da cena, o trabalho dos atores e a própria recepção da plateia.
Primeiro que o ajuste a palcos, praças, galpões ou anfiteatros com dimensões e acústicas distintas força uma constante recalibragem da projeção vocal, da ocupação da cena e da intensidade gestual.
A mudança de público altera os pontos de tensão, o tempo do riso, as zonas de silêncio e as referências culturais compartilhadas. Um trabalho artístico em itinerância desenvolve uma escuta amplificada para ler o ambiente e adaptar o ritmo da cena sem perder a espinha dorsal do espetáculo.
Em espaços não convencionais ou urbanos, o imprevisível — ruídos da cidade, luz natural, interferências do entorno — passa a integrar a cena. A obra abandona a ilusão do controle absoluto para incorporar a realidade do território e isso é um desafio constante em obras como Circo Godot.
Teatro é uma arte relacional, então, uma coisa que nos parece inerente à sua natureza é que um território novo ressignifica o discurso da obra, criando novas relações com a plateia, com o público do lugar e a cena deixa de ser a repetição de uma forma para se tornar um acontecimento moldado pela presença de cada novo lugar. Uma imagem, uma ação ganha camadas simbólicas inteiramente novas ao dialogar com a memória, as urgências e o contexto social do público local.
Além das apresentações, a circulação inclui debates e a oficina Por Nada se Espera, na qual vocês compartilham a pesquisa da companhia em teatro físico, técnicas circenses e formas animadas. Que lugar a formação e a troca com outros artistas e comunidades ocupam na trajetória do Circo Godot e como essas experiências também retornam para os processos criativos do grupo?
As oficinas e vivências de circo-teatro — especialmente em circulações pelo interior e áreas periféricas — funcionam como espaços de democratização da linguagem. A formação não se limita ao ensino da técnica (acrobacia, malabares, comicidade), mas propõe a descoberta do corpo expressivo e do jogo coletivo, levando em conta o quanto o outro é peça essencial para o nosso crescimento enquanto indivíduos.
Assim, a prática constante do ensino retroalimenta a pesquisa de linguagem dos atuantes. Ao transmitir princípios de presença, vulnerabilidade e rigor físico, os próprios artistas renegociam seus métodos de criação, incorporando a vivacidade do improviso e a simplicidade técnica às montagens do repertório.
O circo possui historicamente uma forte relação com o nomadismo, e vocês afirmam que “cada praça ou palco ganha contornos únicos” a partir do encontro com cada comunidade. Depois de 16 anos de trajetória, o que significa para a companhia realizar uma circulação que atravessa Pernambuco do Litoral ao Sertão e que novos caminhos vocês imaginam para a pesquisa do Circo Godot a partir dessa experiência?
Circular por Pernambuco reafirma o nomadismo não apenas como itinerância física, mas como um princípio dramatúrgico e ético. O encontro com diferentes comunidades opera como um vetor de renovação: a lona, a praça ou o palco funcionam como memórias porosas que absorvem as dinâmicas, os risos, os tempos e os silêncios locais.
Atravessar o sertão, o agreste e a zona da mata permite friccionar a linguagem circense com as paisagens e identidades culturais do próprio território. Dessa forma, a estrada se confirma como o verdadeiro ateliê do Circo Godot: um espaço onde a experiência acumulada em mais de uma década não se engessa, mas se dissolve e se reconstrói no olhar do espectador de cada nova cidade.
Para o futuro, pensamos em montar uma segunda versão do espetáculo, a que chamaremos “Circo Godot – Segunda Jornada”. Mas isso mais para o futuro, sem data definida ainda, apenas sonho… Por enquanto.














