Entrevista – Gheuza | Romper o Ciclo

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Imagem – Divulgação
Em Aparecida, a atriz Gheuza leva à cena um solo construído a partir de uma pesquisa realizada com o diretor e dramaturgo Eric Valença em prontuários da Delegacia da Mulher e de unidades de acolhimento.
A partir de relatos de mulheres que sobreviveram à violência, o espetáculo aborda os ciclos de abuso e o feminicídio pelo olhar de uma investigadora policial que, ao acompanhar diferentes casos, também revela as violências que atravessam sua própria experiência como mulher negra em um ambiente profissional predominantemente masculino. Com dramaturgia assinada por Gheuza e Eric Valença e direção de Valença, Aparecida realiza curta temporada na Fabulosa Arte Colab, em Piedade, nos dias 1º e 2 de outubro.
Na entrevista a Márcio Andrade, Gheuza reflete sobre os cuidados éticos envolvidos na transformação de experiências reais em dramaturgia, a construção polifônica de uma personagem atravessada por diferentes vozes e o diálogo entre suas próprias vivências e aquelas encontradas durante a pesquisa.
Aparecida nasceu de uma pesquisa realizada por você e Eric Valença em prontuários da Delegacia da Mulher e de unidades de acolhimento, reunindo relatos de mulheres que sobreviveram à violência. Como foi entrar em contato com esse material e quais cuidados éticos e artísticos orientaram a transformação dessas experiências reais em dramaturgia?
Nenhum nome real é utilizado. Nenhuma entrevista foi gravada e nem sequer anotamos nada durante as “entrevistas “. Tudo foi apenas tratado como bate papo de maneira tranquila deixando cada uma revelar-se na sua medida. Optamos pela narração de maneira desconexa e sem direcionamento de um fato específico.
A protagonista é uma investigadora policial que acompanha casos de violência contra a mulher, mas que também é atravessada pelas estruturas e experiências que investiga. Por que escolher essa personagem como fio condutor do espetáculo e o que esse ponto de vista permitiu revelar sobre os ciclos de abuso e o feminicídio?
Essa personagem é a porta-voz de muitas mulheres que ela ajudou ou se relacionou de alguma forma. É o relato de quem viveu outros tipos de violência não só por ser uma mulher negra, como também, trabalhar num lugar eminentemente masculino. Por estar neste ângulo diferenciado se torna uma personagem mais rica em possibilidades de vivenciar diversos lados e situações sobre o mesmo tema.
Você define Aparecida como uma dramaturgia polifônica, na qual a voz da personagem se mistura às vozes das mulheres presentes nos relatos e à sua própria voz como mulher negra. Como essas diferentes camadas foram construídas na escrita e na atuação? Nesse processo, suas experiências pessoais também atravessam a personagem sem apagar as histórias que deram origem ao espetáculo?
Certamente! Uma atriz nunca constrói uma personagem sem utilizar suas próprias vivências, isso é o que traz veracidade e humanidade para a personagem. Nesta obra a minha fala vem carregada não só das minhas vivências como a ampliação de tudo aquilo que escutei e vi ao longo das minhas pesquisas. Vale salientar que é uma obra em constante mutação pessoal e social, uma performance permite também essas atualizações.
Aparecida aborda um tema atravessado por experiências traumáticas e violências concretas. Quais escolhas de encenação e atuação foram importantes para traduzir a força de denúncia desse material, mas sem cair no risco de repetir ou reproduzir a violência no palco?
Optamos por realizar uma contação ininterrupta muitas vezes silenciosa, permeadas apenas por imagens e pequenos sons. A personagem narra, vivencia, explica e opina sendo o elemento mais direto e constante da encenação. Sem muita poesia ou elementos que hipnotizam. Funciona como um soco no estômago ou uma tapa na cara que dói no momento, mas te ajuda a refletir e agir algum tempo depois.
A temporada também inclui apresentações para estudantes, bate-papos com o público e oficinas de teatro para mulheres, ampliando o projeto para além da apresentação do espetáculo. Como você visualiza essas ações de formação amplificando seu processo de criação e diversificando seus campos de atuação?
Extremamente importante. Esses encontros ajudam a reverberar o tema, criando também situações de escuta e acolhimento. Ampliando ainda mais as possibilidades de fortalecimento comunitário, ajudando até mesmo a mover estruturas do próprio ecossistema.











