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Crítica – Fissura | Um drama do desamparo

Por 4 Parede
8 de setembro de 2026
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Imagem – Pedro Sardinha

Por Durval Cristóvão

Professor, Graduado em Teatro e Filosofia e Mestre em Filosofia

Do palco, Pedro Vilela faz sinal para que o técnico apague as luzes da casa. Em seguida, dá play numa projeção, e podemos ouvir sua voz, em off, comentar e refletir sobre as imagens de um protesto da extrema direita portuguesa. Em tom ensaístico, ele nos revela um acontecimento significativo de sua vida que o fez despertar para sua condição de imigrante: o dia em que foi agredido durante aquela manifestação.

As cenas são projetadas sobre um fundo branco, uma espécie de fissura aberta na rotunda escura[1]. Ouvimos o relato, lemos as legendas que acompanham a fala e vemos as imagens de uma “guarda-chuvada” desferida por um idoso que, aos gritos, queria expulsar Vilela, o diferente, a diferença, de Portugal, da sua frente, do seu mundo. Se permanecesse ali, seria imolado num ritual de expiação. Preferiu sair sem reagir.

Durante uma conversa pós-espetáculo, descobri que a peça nasceu do desejo de falar sobre o assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco. No entanto, diante das muitas linhas de força que emergem e se articulam em torno dessa história, a dramaturgia operou um desvio: Marielle e outras tragédias de nossa história política recente permanecem como uma espécie de fundo sobre o qual a história do performer se desenha. Em determinados momentos, o fundo vira figura, num jogo em que a dimensão mais íntima, a história pessoal, se cola àquilo que já é público.

A peça se passa num cubículo feio e desarrumado que se constrói aos poucos com fita crepe, colchão inflável, micro-ondas e outros poucos elementos que caberiam na mala de um carro popular. O íntimo não é propriamente esse espaço, que pode ser lido como o quartinho improvisado de um imigrante pobre, mas uma espécie de refúgio psicológico que reflete a interioridade da personagem, seu drama pessoal, sua própria desarrumação. Ele habita o provisório.

Imagem – Divulgação

Ser estrangeiro não é uma condição exclusiva de quem emigra ou vive numa pátria que não o pariu. O desamparo de quem não tem lugar, próprio do imigrante que vive ilegalmente em outro país, reedita um sentimento originário, experimentado quando se entra no mundo pela primeira vez e expresso no choro de quem nasce.

No mundo, apesar dos tetos, lençóis e abraços, há um “mar de escolhos”, aquele mesmo que levou o príncipe Hamlet a perguntar: “Ser ou não ser?”. Não saber aonde ir ou o que fazer no mundo, quando se torna um problema, pode nos levar ao divã, à loucura ou à ruína. Olha, dá para ir a mais de um desses lugares ao mesmo tempo. Ninguém escapa do desamparo. Até quem nasceu sem chorar apanhou para que, no choro, lembrasse.

Chamo a peça de drama do desamparo porque considero que ela reflete sobre quem não tem lugar no mundo, nem amigos com quem contar, nem família. Em algum lugar do calhamaço que Jung dedicou a Nietzsche e ao seu Assim falou Zaratustra, ele sugere que o filósofo enlouqueceu porque não tinha para quem ou para o que voltar.

Quando apanhou do velhote filho da puta durante um protesto da extrema direita portuguesa, Vilela, como já disse, não reagiu. Repetia para si: “Eu tenho a peça, eu tenho a peça”. Ele tinha para o que voltar. Não podia se envolver numa confusão. Posso dizer que o teatro o salvou.

Na peça, as falas de si, o drama pessoal do performer, estão sempre conectadas à história política recente de nosso país. Essa fabulação histórica é crível a ponto de não importar para a fruição do espectador se Vilela realmente participou das manifestações e dos acontecimentos históricos que narra. Ele podia estar lá, e isso é o que importa.

A sessão aconteceu na tarde de quinta-feira, 3 de setembro de 2026, em Limoeiro, no Galpão das Artes, para uma plateia formada por estudantes dos últimos anos do Ensino Fundamental. Jovens que não viveram essa história recente que se desenrolou a partir do golpe de 2016 e que a peça atualiza ora como fundo, ora como figura.

O espetáculo foi adaptado para essa sessão (uma versão matinê?). Pedro Vilela disse, numa rápida conversa que tivemos ao final, que a dramaturgia permitia essa liberdade e que havia suprimido duas cenas. Numa delas, aparece fantasiado de panda da cabeça aos pés, como um daqueles personagens da famigerada Carreta Furacão, e amplia a discussão sobre não ter para quem ou para o que voltar; na outra, conta sua história com o amigo Flávio, que o recebeu quando chegou a Portugal.

A peça termina com Vilela deitado no colchão inflável, mexendo no celular ao som de “Eu Tô Cansado Dessa Merda”, faixa dez do disco Carnaval no Inferno, da banda pernambucana Eddie. A letra diz: “A minha paz, faz tempo, tá querendo trégua. A minha paciência se atracou com ela”. A peça cumpre, de certo modo, um papel de manifesto, ou melhor: é outra manifestação, como as tantas citadas durante o espetáculo.

Assim como nesses protestos, em que parte significativa daqueles que protestam reivindica o direito de ocupar um lugar, o performer reivindica, penso eu, um lugar no mundo, o direito de existir na sua diferença.

Fissura começa com um pequeno corte aberto na cabeça de Vilela depois do golpe desferido pelo velhote nazi-fascista (não sei se cortou, mas isso não importa. Se não cortou, fez Fissura). Como uma rachadura que surge na dureza do concreto, essa fissura se expandiu e, transformada em espetáculo, pode se tornar uma ameaça real. Será?

Notas de Rodapé

[1] A cena é escura. São três os principais pontos de luz: uma lâmpada que responde a um controle remoto e muda de cor, um micro-ondas e uma espécie de pequeno ventilador que acende como uma lanterna.

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Nos últimos anos, o mundo passou por transformaç Nos últimos anos, o mundo passou por transformações sociais, políticas e tecnológicas que questionam nossas relações com o espaço e a cultura. As tensões globais, intensificadas por guerras e conflitos, afetam a economia, a segurança alimentar e o deslocamento de pessoas. 

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Com a ascensão da extrema direita, a influência religiosa e as mudanças climáticas, surgem novas questões sobre sustentabilidade e convivência.

Diante deste cenário, o dossiê #20 Território em Trânsito traz ensaios, podcasts e videocast que refletem sobre como artistas, coletivos e os públicos de Artes da Cena vêm buscando caminhos de diálogo e interação com esses conflitos.

A partir da próxima semana, na sua timeline.
#4Parceria: Quer aprofundar seus conhecimentos sob #4Parceria: Quer aprofundar seus conhecimentos sobre as histórias e as estéticas dos teatros negros no Brasil? 

Estão abertas as inscrições, até o dia 13/09, para a oficina on-line Saberes Espiralares - sobre o teatro negro e a cena contemporânea preta. 

Dividida em três módulos (Escavações, Giras de Conversa e Fabulações), o formato intercala aulas expositivas, debates e rodas de conversa que serão ministrados pela pesquisadora, historiadora e crítica cultural Lorenna Rocha. 

A atividade também será realizada com a presença das artistas convidadas Raquel Franco, Íris Campos, Iara Izidoro, Naná Sodré e Guilherme Diniz. 

Não é necessário ter experiência prévia. A iniciativa é gratuita e tem incentivo do Governo do Estado de Pernambuco, por meio do Funcultura, e parceria com o @4.parede 

Garanta sua vaga! 

Link na bio. 

Serviço:
Oficina SABERES ESPIRALARES - sobre teatros negros e a cena contemporânea preta
Datas: Módulo 1 – 16/09/24 – 20/09/24; Módulo 2 (participação das convidadas) – 23/09/24 – 27/09/24; Módulo 3 – 30/09/24 - 04/10/24. Sempre de segunda a sexta-feira
Datas da participação das convidadas: Raquel Franco - 23/09/24; Íris Campos - 24/09/24; Iara Izidoro - 25/09/24; Naná Sodré - 26/09/24; Guilherme Diniz - 27/09/24
Horário: 19h às 22h
Carga horária: 45 horas – 15 encontros
Local: Plataforma Zoom (on-line)
Vagas: 30 (50% para pessoas negras, indígenas, quilombolas, 10% para pessoas LGBTTQIA+ e 10% para pessoas surdas e ensurdecidas)
Todas as aulas contarão com intérpretes de Libras
Incentivo: Governo do Estado de Pernambuco - Funcultura
Inscrições: até 13/09. Link na bio

#teatro #teatronegro #cultura #oficinas #gratuito #online #pernambuco #4parede #Funcultura #FunculturaPE #CulturaPE
#4Panorama: O MIRADA – Festival Ibero-Americano #4Panorama: O MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realizado pelo Sesc São Paulo, ocorre de 5 a 15 de setembro de 2024, em Santos. 

A sétima edição homenageia o Peru, com onze obras, incluindo espetáculos e apresentações musicais. O evento conta com doze peças de Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Espanha, México, Portugal e Uruguai, além de treze produções brasileiras de vários estados, totalizando 33 espetáculos. 

A curadoria propõe três eixos: sonho, floresta e esperança, abordando temas como questões indígenas, decoloniais, relações com a natureza, violência, gênero, identidade, migrações e diversidade. 

Destaque para "El Teatro Es un Sueño", do grupo Yuyachkani, e "Esperanza", de Marisol Palacios e Aldo Miyashiro, que abrem o festival. Instalações como "Florestania", de Eliana Monteiro, com redes de buriti feitas por mulheres indígenas, convidam o público a vivenciar a floresta. 

Obras peruanas refletem sobre violência de gênero, educação e ativismo. O festival também inclui performances site-specific e de rua, como "A Velocidade da Luz", de Marco Canale, "PALMASOLA – uma cidade-prisão", e "Granada", da artista chilena Paula Aros Gho.

As coproduções como "G.O.L.P." e "Subterrâneo, um Musical Obscuro" exploram temas sociais e históricos, enquanto espetáculos internacionais, como "Yo Soy el Monstruo que os Habla" e "Mendoza", adaptam clássicos ao contexto latino-americano. 

Para o público infantojuvenil, obras como "O Estado do Mundo (Quando Acordas)" e "De Mãos Dadas com Minha Irmã" abordam temas contemporâneos com criatividade.

Além das estreias, o festival apresenta peças que tratam de questões indígenas, memória social, política e cultura popular, como "MONGA", "VAPOR, ocupação infiltrável", "Arqueologias do Futuro", "Esperando Godot", entre outras.

Serviço: MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, de 5 a 15 de setembro de 2024, em Santos. 

Para saber mais, acesse @sescsantos
#4Panorama: Nos dias 05, 14, 21 e 28 de setembro, #4Panorama: Nos dias 05, 14, 21 e 28 de setembro, acontece Ocupação Espaço O Poste, com programação que inclui a Gira de Diálogo com Iran Xukuru (05/09) e os espetáculos “Antígona - A Retomada” (14/09), “A Receita” (21/09) e “Brechas da Muximba” (28/09).

Espaço O Poste (Rua do Riachuelo, 467, Boa Vista - Recife/PE), com apoio do Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas 2023, promove atrações culturais que refletem vivências afropindorâmicas em sua sede, no Recife/PE. 

A Gira de Diálogo com Iran Xukuru acontece em 05/09, às 19h, com entrada gratuita. Iran Xukuru, idealizador da Escola de Vida Xukuru Ynarú da Mata, compartilhará conhecimentos sobre práticas afroindígenas, regeneração ambiental e sistemas agrícolas tradicionais.

Em 14/09, às 19h, o grupo Luz Criativa apresenta “Antígona - A Retomada”, adaptação da tragédia grega de Sófocles em formato de monólogo. Dirigido por Quiercles Santana, o espetáculo explora a resistência de uma mulher contra um sistema patriarcal opressor. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

Em 21/09, às 19h, Naná Sodré apresenta “A Receita”, solo que discute violência doméstica contra mulheres negras, com direção de Samuel Santos. A peça é fundamentada na pesquisa “O Corpo Ancestral dentro da Cena Contemporânea” e utiliza treinamento de corpo e voz inspirado em entidades de Jurema, Umbanda e Candomblé. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

No dia 28/09, às 19h, ocorre a 3ª edição do projeto “Ítàn do Jovem Preto” com o espetáculo “Brechas da Muximba” do Coletivo À Margem. A peça, dirigida por Cas Almeida e Iná Paz, é um experimento cênico que mistura Teatro e Hip Hop para abordar vivências da juventude negra. Entrada gratuita mediante retirada de ingresso antecipado no Sympla.

Para saber mais, acesse @oposteoficial
#4Papo: O espetáculo MACÁRIO do brazil, dirigido #4Papo: O espetáculo MACÁRIO do brazil, dirigido por Carlos Canhameiro, estreia no TUSP Maria Antonia e segue em temporada até 1º de setembro de 2024. O trabalho revisita o clássico Macário, de Álvares de Azevedo (1831-1852), publicado postumamente em 1855. Trata-se de uma obra inacabada e a única do escritor brasileiro pensada para o teatro.

Para abordar o processo de criação da obra, o diretor Carlos Canhameiro conversou com o Quarta Parede. Confira um trecho da entrevista:

‘Macário é uma peça inacabada, publicada à revelia do autor (que morreu antes de ver qualquer de seus textos publicados). Desse modo, a forma incompleta, o texto fragmentado, com saltos geográficos, saltos temporais, são alguns dos aspectos formais que me interessaram para fazer essa montagem’

Para ler a entrevista completa, acesse o link na bio.
#4Papo: O livro Elegbára Beat – um comentário #4Papo: O livro Elegbára Beat – um comentário épico sobre o poder é fruto dos 20 anos de pesquisa de rodrigo de odé sobre as relações entre capoeira angola, teatro negro, cinema, candomblé e filosofia africana. 

Publicado pela Kitabu Editora, o texto parte da diversidade racial negra para refletir sobre as relações de poder no mundo de hoje. O autor estabelece conexões entre o mito de nascimento de Exu Elegbára e algumas tragédias recentes, como o assassinato do Mestre Moa do Katendê, o assassinato de George Floyd, a morte do menino Miguel Otávio e a pandemia de Covid-19.

Para abordar os principais temas e o processo de escrita do livro, o autor rodrigo de odé conversou com o Quarta Parede. Confira um trecho da entrevista:

‘Em Elegbára Beat, a figura de Exu também fala sobre um certo antagonismo à crença exagerada na figura da razão. Parafraseando uma ideia de Mãe Beata de Yemonjá, nossos mitos têm o mesmo poder que os deles, talvez até mais, porque são milenares. Uma vez que descobrimos que não existe uma hierarquia entre mito e razão, já que a razão também é fruto de uma mitologia, compreendemos que não faz sentido submeter o discurso de Exu ao discurso racional, tal como ele foi concebido pelo Ocidente. Nos compete, porém, aprender o que Exu nos ensina sobre a nossa razão negra’

Para ler a entrevista completa, acesse o link na bio.
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