Crítica – Fissura | Um drama do desamparo

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Imagem – Pedro Sardinha
Por Durval Cristóvão
Professor, Graduado em Teatro e Filosofia e Mestre em Filosofia
Do palco, Pedro Vilela faz sinal para que o técnico apague as luzes da casa. Em seguida, dá play numa projeção, e podemos ouvir sua voz, em off, comentar e refletir sobre as imagens de um protesto da extrema direita portuguesa. Em tom ensaístico, ele nos revela um acontecimento significativo de sua vida que o fez despertar para sua condição de imigrante: o dia em que foi agredido durante aquela manifestação.
As cenas são projetadas sobre um fundo branco, uma espécie de fissura aberta na rotunda escura[1]. Ouvimos o relato, lemos as legendas que acompanham a fala e vemos as imagens de uma “guarda-chuvada” desferida por um idoso que, aos gritos, queria expulsar Vilela, o diferente, a diferença, de Portugal, da sua frente, do seu mundo. Se permanecesse ali, seria imolado num ritual de expiação. Preferiu sair sem reagir.
Durante uma conversa pós-espetáculo, descobri que a peça nasceu do desejo de falar sobre o assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco. No entanto, diante das muitas linhas de força que emergem e se articulam em torno dessa história, a dramaturgia operou um desvio: Marielle e outras tragédias de nossa história política recente permanecem como uma espécie de fundo sobre o qual a história do performer se desenha. Em determinados momentos, o fundo vira figura, num jogo em que a dimensão mais íntima, a história pessoal, se cola àquilo que já é público.
A peça se passa num cubículo feio e desarrumado que se constrói aos poucos com fita crepe, colchão inflável, micro-ondas e outros poucos elementos que caberiam na mala de um carro popular. O íntimo não é propriamente esse espaço, que pode ser lido como o quartinho improvisado de um imigrante pobre, mas uma espécie de refúgio psicológico que reflete a interioridade da personagem, seu drama pessoal, sua própria desarrumação. Ele habita o provisório.
Ser estrangeiro não é uma condição exclusiva de quem emigra ou vive numa pátria que não o pariu. O desamparo de quem não tem lugar, próprio do imigrante que vive ilegalmente em outro país, reedita um sentimento originário, experimentado quando se entra no mundo pela primeira vez e expresso no choro de quem nasce.
No mundo, apesar dos tetos, lençóis e abraços, há um “mar de escolhos”, aquele mesmo que levou o príncipe Hamlet a perguntar: “Ser ou não ser?”. Não saber aonde ir ou o que fazer no mundo, quando se torna um problema, pode nos levar ao divã, à loucura ou à ruína. Olha, dá para ir a mais de um desses lugares ao mesmo tempo. Ninguém escapa do desamparo. Até quem nasceu sem chorar apanhou para que, no choro, lembrasse.
Chamo a peça de drama do desamparo porque considero que ela reflete sobre quem não tem lugar no mundo, nem amigos com quem contar, nem família. Em algum lugar do calhamaço que Jung dedicou a Nietzsche e ao seu Assim falou Zaratustra, ele sugere que o filósofo enlouqueceu porque não tinha para quem ou para o que voltar.
Quando apanhou do velhote filho da puta durante um protesto da extrema direita portuguesa, Vilela, como já disse, não reagiu. Repetia para si: “Eu tenho a peça, eu tenho a peça”. Ele tinha para o que voltar. Não podia se envolver numa confusão. Posso dizer que o teatro o salvou.
Na peça, as falas de si, o drama pessoal do performer, estão sempre conectadas à história política recente de nosso país. Essa fabulação histórica é crível a ponto de não importar para a fruição do espectador se Vilela realmente participou das manifestações e dos acontecimentos históricos que narra. Ele podia estar lá, e isso é o que importa.
A sessão aconteceu na tarde de quinta-feira, 3 de setembro de 2026, em Limoeiro, no Galpão das Artes, para uma plateia formada por estudantes dos últimos anos do Ensino Fundamental. Jovens que não viveram essa história recente que se desenrolou a partir do golpe de 2016 e que a peça atualiza ora como fundo, ora como figura.
O espetáculo foi adaptado para essa sessão (uma versão matinê?). Pedro Vilela disse, numa rápida conversa que tivemos ao final, que a dramaturgia permitia essa liberdade e que havia suprimido duas cenas. Numa delas, aparece fantasiado de panda da cabeça aos pés, como um daqueles personagens da famigerada Carreta Furacão, e amplia a discussão sobre não ter para quem ou para o que voltar; na outra, conta sua história com o amigo Flávio, que o recebeu quando chegou a Portugal.
A peça termina com Vilela deitado no colchão inflável, mexendo no celular ao som de “Eu Tô Cansado Dessa Merda”, faixa dez do disco Carnaval no Inferno, da banda pernambucana Eddie. A letra diz: “A minha paz, faz tempo, tá querendo trégua. A minha paciência se atracou com ela”. A peça cumpre, de certo modo, um papel de manifesto, ou melhor: é outra manifestação, como as tantas citadas durante o espetáculo.
Assim como nesses protestos, em que parte significativa daqueles que protestam reivindica o direito de ocupar um lugar, o performer reivindica, penso eu, um lugar no mundo, o direito de existir na sua diferença.
Fissura começa com um pequeno corte aberto na cabeça de Vilela depois do golpe desferido pelo velhote nazi-fascista (não sei se cortou, mas isso não importa. Se não cortou, fez Fissura). Como uma rachadura que surge na dureza do concreto, essa fissura se expandiu e, transformada em espetáculo, pode se tornar uma ameaça real. Será?
Notas de Rodapé
[1] A cena é escura. São três os principais pontos de luz: uma lâmpada que responde a um controle remoto e muda de cor, um micro-ondas e uma espécie de pequeno ventilador que acende como uma lanterna.












