Entrevista – Compassos Cia de Dança | Escapa ao esperado

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Imagem – Morgana Narjara
A Compassos Cia. de Dança percorre Recife e Olinda com Passo, espetáculo que aproxima cavalo-marinho, maracatu rural e capoeira do teatro, da dança contemporânea, da performance e do teatro de bonecos. Com roteiro e direção de Raimundo Branco, seis artistas criadores conduzem um brinquedo cênico que convida o público a dançar, conversar e participar, atravessando as fronteiras entre palco e plateia. Inspirada em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, a obra transforma histórias e deslocamentos dos artistas em matéria corporal e poética, incorporando também a Libras como linguagem de criação.
Na entrevista realizada por Márcio Andrade, Raimundo Branco reflete sobre seus 36 anos de atividades e sobre um espetáculo que se renova no encontro entre diferentes corpos, tempos e saberes. A conversa aborda a escuta de mestres e brincantes, a potência do erro e do não saber nos processos de criação e a pesquisa que transforma sinais de Libras em possibilidades de dança. Os artistas também compartilham experiências em que a participação do público modificou a estrutura da obra: repentes, poemas e coreografias trazidos pelas pessoas de cada lugar passam a integrar a apresentação, fazendo da circulação uma oportunidade de recriar a cena.
Marcada pelo diálogo entre práticas populares, investigação corporal e diferentes linguagens artísticas, a trajetória da Compassos encontra nesta temporada um retorno a espaços que contribuíram para sua formação. De 16 de outubro a 6 de novembro, a programação gratuita reúne apresentações, bate-papos e a oficina O Passo do Brincante no Centro Lua de São Jorge, na Escola de Danças Populares Família Pernambuco, no CAC-UFPE e no COMPAZ Leda Alves. Ao revisitar esses parceiros e acolher as experiências das comunidades, o grupo mantém Passo em movimento, alimentando sua pesquisa com os encontros e aprendizados de cada território.
A Compassos completa 36 anos de atividades em 2026, e ‘Passo’ revisita uma caminhada marcada pelo encontro entre diferentes linguagens artísticas. Ao olhar para essa trajetória, quais inquietações permanecem na pesquisa da companhia e o que este espetáculo transforma ou inaugura na maneira de vocês criar?
PASSO, além de revisitar sua trajetória, é uma obra em constante movimento, que se transforma e se revisita por meio da renovação do elenco e da continuidade das pesquisas desenvolvidas na Cia. Quando isso acontece, os corpos que chegam, com suas formas, histórias e experiências, contribuem para que o espetáculo se renove, se remodele e encontre novos caminhos. Tal como acontece em muitos brinquedos e folguedos populares, que bebem de novos conhecimentos, se alimentam das experiências e das transformações que atravessam a vida, sem, contudo, perder sua identidade.
Acreditamos que a base da renovação e a possibilidade de novas maneiras de reinvenção estão justamente na visita aos antigos, àqueles que vieram antes de nós e que, por meio dos corpos novos, alcançam os de hoje! São esses encontros entre tempos, corpos e saberes que mantêm vivo e transformam o PASSO, sem deixar de ser o que ele É.
Como parte desse processo de continuidade e pesquisa, Raimundo vem desenvolvendo estudos para a criação de um projeto solo, previsto para 2027. A pesquisa tem como referências e campos de investigação a capoeira de angola, o contato e improvisação, o Cavalo Marinho, o tango, a dança-teatro — com aproximações às obras de Pina Bausch e Kurt Jooss.
Esse projeto nasce justamente da continuidade das pesquisas desenvolvidas no processo de criação de PASSO-Compassos, desdobrando questões como migração e, experimentações que seguem em movimento e encontram, agora, outros caminhos de investigação.
Em ‘Passo’, artistas com diferentes formações aproximam saberes do cavalo-marinho, do maracatu rural e da capoeira do teatro, da dança contemporânea e da performance. Como essas experiências se encontram no processo de criação coletiva e de que maneira as práticas populares orientam a construção dos movimentos, das relações e do jogo cênico?
Através do ver e ouvir os artistas e mestres que nos visitam, ou que visitamos em seus lugares de morada e brincadeira. Através da repetição e da revisitação histórica, teórico-prática e imagética. E, sobretudo, através da abertura de espaço para aqueles que acham que não sabem dançar a dança do PASSO e que, justamente por meio de seu não saber, nos ensinam outras maneiras de dançar, perceber e construir a cena. Porque o PASSO é um lugar para os que “sabem dançar”, mas também para aqueles que acham que “não sabem dançar”.
Na Compassos, os artistas intérpretes criadores são convidados a transformar aquilo que é considerado erro, ou mesmo o não saber, em algo importante e fundamental nos processos de construção e criação cênico-coreográfico-interpretativa. O que parece não caber, o que escapa ao esperado ou momento poético que surge fora do lugar ou da forma conhecida, abrindo espaço para outras descobertas, outros movimentos e possibilidades de criação.
Não saber é também saber.
Errar é também acertar.
Durante os processos de montagem e temporada de algumas obras, e no percurso do projeto “A DANÇA DO COTIDIANO – as voltas que o mundo dá” os artistas e alunos interessados participaram de aulas de capoeira, canto e música no Centro de Capoeira Herança de Angola, do Mestre Caica, em Cidade Tabajara, Olinda-PE, e na Compassos com o professor e bailarino Fábio Cabide.
Essas experiências foram muito importantes para os diferentes processos que estávamos construindo. O encontro com a capoeira, seus fundamentos, cantos, ritmos e modos de transmissão ampliou as possibilidades de pesquisa e criação, alimentando as relações entre corpo, memória, escuta e movimento revelou-se fundamental para a continuidade das investigações da Compassos.
‘Morte e Vida Severina’, de João Cabral de Melo Neto, atravessa o espetáculo tanto nas autodescrições dos artistas quanto na ideia de uma obra migrante, que percorre caminhos em busca do público. Como essa referência literária se transforma em ação corporal e que sentidos ganha ao circular por diferentes territórios de Recife e Olinda?
Morte e Vida… ganha força e ecoa no corpo e na voz dos artistas, porque são pessoas que vêm de diferentes lugares e experiências. Pessoas/artistas que têm no Severino de João Cabral um lugar de representatividade, ao bradar que somos todos Severinos, mas também somos Fernandos, Marias, Sandras, Patrícias, Anas, que vêm de terras as mais diversas. Não só da Serra da Costela, mas da Bahia, de São Paulo, de Olinda, da Várzea.
Corpos que, a partir dos processos de investigação e experimentação, se imaginam transformados em panelas — os redemoinhos do rio São Francisco, que sugam os desavisados —, rodopiando e percorrendo o espaço destinado à apresentação, como rios e corredeiras.
As ruas e avenidas que ligam os espaços visitados são consideradas rios e afluentes, e os corpos, águas que desaguam, banhando os espaços visitados, como se cidades fossem.
É aquele Severino que sai da Serra da Costela, percorre estradas e rodovias até chegar ao Recife, onde vive e revive sua trajetória.
No nosso caso, é o PASSO que chega para se apresentar.
A LIBRAS integra a apresentação por meio dos artistas e do tradutor-intérprete e performer, sendo reconhecida como prática artística viva. Como vocês construíram essa relação entre língua de sinais, dança e dramaturgia, e de que maneira ela modifica os movimentos, os tempos da cena e o encontro com públicos surdos e ouvintes?
Tempo das cenas e movimentos
A linguagem das libras é para nós, não só uma forma de comunicação com o público surdo ou de baixa audição, como também vem se configurando como uma pesquisa em linguagem em dança para todo e qualquer público. Como um sinal em libras, pode ser tornar passo de dança? Isso nos interessa e ter um intérprete de libras também como performer, nos auxilia nesta procura.
O encontro da Libras com as danças populares e contemporânea, o teatro, a poesia e a pantomima, representado pelos artistas do PASSO, é super e ultra bem recebido pelo público surdo e ouvinte, sem distinção. E esse prazer e essa satisfação nos movem a fazer mais. Muito mais e continuar estudando novas linguagens para o espetáculo!
A temporada reúne apresentações, bate-papos e a oficina ‘O Passo do Brincante’ em espaços ligados à formação cultural e às práticas populares. Como vocês pensam essa circulação como uma troca com as comunidades e de que maneira os saberes e a participação das pessoas de cada território podem transformar o próprio espetáculo?
Na realidade, o que estamos fazendo é voltar aos lugares que contribuíram para a nossa formação de vida e para a nossa trajetória como eternos artistas-pesquisadores, em constante aprendizado.
Os espaços propostos para essa circulação são uma pequena amostra da trajetória que o PASSO/Compassos já realizou ao longo de sua caminhada, visitando os lugares mais distintos e distantes, muitas vezes considerados sem condições para uma apresentação de dança e teatro.
- Uma viela de terra batida cheia de desníveis, onde fica a sede do Boi Pintado, na periferia de Caruaru;
- O No Meu Terreiro Tem Arte, de Odília Nunes, no Sítio do Minadouro, distrito da Ingazeira, onde o público participante se envolveu ativamente, cantando repentes, recitando suas próprias poesias e criando coreografias que não estavam na obra, modificando completamente a estrutura do espetáculo naquele momento;
- O espaço SÃO Gens de Teatro, com a participação de 100% da plateia, transformando o espetáculo em um misto de oficina e aula-espetáculo;
- O Parque 13 de Maio, onde ensaiamos e está sendo criada uma parceria espontânea entre o espaço, os visitantes e os funcionários, que estão sempre participando do projeto PASSO, contribuindo com o som quando o nosso descarrega, disponibilizando carregadores de celular, buscando informações e procurando, de alguma forma, participar ou contribuir com os ensaios. Inclusive, surgiu um convite para que o espetáculo se apresente em um projeto que acontece uma vez por mês nas imediações do parque.
Vê só!
No caso da circulação atual:
São três Pontos de Cultura e um centro de formação educacional.
Dois centros de capoeira administrados por mestres que, de alguma forma, passaram pela formação na capoeiragem com Raimundo Branco, na década de 1980, e que hoje desenvolvem um trabalho maravilhoso de formação e conscientização político-cultural por meio da capoeira, da música e da dança — coco, maracatu e capoeira.
São eles: o Centro de Capoeira Lua de São Jorge, em Cidade Tabajara, com os mestres Ulisses e Juarez, e sua extensão no COMPAZ Led Alves, com o Mestre Lua.
Temos também a sede da Família Pernambuco, em Casa Amarela, dirigida por Pedro Pernambuco e seu marido, Gera Jorge, que trabalham na formação em danças populares.
E, por fim, o CAC-UFPE, espaço voltado para alunos e professores de dança (e que foi local de estudo para alguns de nossos performers), assim como para todos aqueles que estiverem por lá circulando.
Naturalmente, desses encontros surgirão muitos aprendizados que certamente contribuirão para o processo contínuo do PASSO.














