Entrevista – Emmanuel Matheus e HBlynda Morais | Da margem ao palco

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Imagem – Dante de Moraes
Uma casa na periferia do Recife reúne seis personagens cujos afetos, desejos e conflitos são atravessados por um disparo que transforma o cotidiano e a própria linguagem da cena. Em Barraco 8, espetáculo escrito e dirigido por Emmanuel Matheus, Diana, uma mulher trans, negra e estudante de Medicina, tenta construir seu futuro em meio às violências e ao controle que marcam as relações sob aquele teto. Entre humor, sensualidade, solidariedade e tensões, a montagem apresenta a periferia como um território de experiências contraditórias, habitado por pessoas que amam, sonham, reproduzem violências e procuram caminhos para enfrentá-las.
Na entrevista realizada por Márcio Andrade, Emmanuel Matheus e HBlynda Morais, intérprete de Diana, refletem sobre o encontro entre suas vivências e a construção da dramaturgia. A conversa aborda as memórias do autor como homem negro periférico, a participação da atriz na elaboração da personagem e a importância de colocar em cena uma mulher trans cujos desejos e projetos ultrapassam as violências que sofre. Os artistas também discutem a passagem de uma atuação naturalista e íntima para uma linguagem marcada por fragmentações, estranhamentos e quebras da quarta parede, investigando como o envolvimento emocional da plateia pode se articular à reflexão sobre aquilo que testemunha.
A parceria entre Emmanuel e HBlynda se fortaleceu no processo de criação do solo performático HBLYNDA EM TRANSito, dirigido por ele, em que as trocas sobre gênero, sexualidade e a presença de pessoas trans no teatro pernambucano abriram caminhos para a criação de Diana. Em Barraco 8, essa colaboração aproxima experiências pessoais e elaboração artística para ampliar o imaginário sobre os corpos e as histórias representados no palco. Realizado pela ACA Produções, o espetáculo chega ao Teatro Hermilo Borba Filho, com sessões de 7 a 11 de outubro e tradução em Libras em todas as apresentações, propondo um olhar sobre o direito ao estudo, ao amor e à construção do próprio futuro.
Barraco 8 nasce do seu desejo de escrever sobre a periferia a partir da própria experiência como homem negro periférico, articulada também ao contato com vivências de pessoas trans. Como essas experiências foram se encontrando durante a escrita e por que Diana, uma mulher trans e estudante de Medicina, tornou-se o centro dessa narrativa?
Emmanuel: Minha vida até meus 24 anos foi em periferias. Nasci em Olinda, no bairro de Águas Compridas, depois Conjunto Beira Mar, depois Bultrins, depois voltei para Águas Compridas, depois Nova Olinda, depois Porto da Madeira. Foram muitas vivências entre racismo, baculejos, assaltos, violência e dureza que é a periferia, mas também as coisas boas e bonitas, os laços e as mãos que se erguem no meio de tudo isso. Nunca romantizei de onde vim. Ainda tenho familiares lá, vou visitar algumas vezes. E relembro de tudo que passei.
Pela primeira vez, parei para escrever sobre essa vivência, esse lugar que faz parte de mim e de quem sou, porém fatalmente afetado, admirado, encantado e fã do trabalho de Hblynda Morais, por nossa troca em seu monólogo performático “Hblynda em Trânsito” que tive a honra de dirigir, me veio a certeza de que precisaria tê-la comigo nessa jornada, nesse processo. Queria algo nosso, que me atravessasse, e a mesma rua que me atravessou, passasse em algum momento por ela e assim nossas histórias estariam ali juntas sendo mostrada, da forma mais pura, digna, e sincera para todes.
O espetáculo foi escrito, mas teve mais 2 tratamentos. Antes de chegar no texto principal, Hblynda leu e deu o aval se estava tudo nos conformes do que ela acreditava e sentia como mulher trans não binária sobre periferia e vida trans.
A partir desse aval, desse olhar sensível e de sua condução para pontos que precisavam ser revistos, tratados pela segunda vez. Fizemos um geral e ao ler o texto por completo o elenco se emocionou e tivemos a certeza que estávamos no caminho certo. Tirando um ator, o resto do elenco é formado por pessoas negras, periféricas, gays, lésbicas e trans. Formado por quem vive à margem, então ver que todos compactuavam com aquelas vivências e elas deixam a partir dali de ser de Emmanuel Matheus e passa a ser de todo elenco, foi muito importante e está sendo.
Diana ela é ponto central. Ela é uma pessoa que está sendo bombardeada pela sociedade, governo, e familiares por ser quem é. Uma mulher trans, preta, gorda. Que em meio a tanta crueldade sofrida por quem mora com ela no mesmo teto, tenta guiar sua própria vida no caminho correto. Não teria ninguém melhor do que Hblynda pra esse papel. E tô feliz demais com isso.
A peça apresenta uma periferia atravessada por transfobia, violência e desigualdade, mas também por humor, solidariedade e sonhos. Como você construiu esses personagens buscando escapar tanto da romantização quanto de uma representação da periferia restrita à miséria e à violência?
Emmanuel: Pra todo lado de alguém, de um lugar, de qualquer personagem existe o lado bom e ruim. Minhas peças sempre são levadas nessas ondas uma hora leve, outra pesada, uma hora alegre, outra triste.
Existe dureza na periferia mas existe beleza, existe música boa, existe gente forte que enfrenta o que tiver. Existe dignidade, existe verdade. Tento colocar um pouco de cada coisa que vi e vivi.
Os personagens nascem de vizinhos, de pessoas ligadas a minha vida, lugares falados, pessoas lembradas – com nomes trocados – são da minha realidade vivida, pessoas reais que eu quis retratar ali. Tudo ali já aconteceu. Tirando o ápice emocional gerado pelas últimas ações que finaliza a obra, o resto é real, em relação a personagens, a vivências, a acontecimentos. Inspirações reais foram usadas como combustível para o nascer das personagens. E para o realizar da obra.
No espetáculo, a encenação parte de uma atuação mais naturalista e íntima e incorpora procedimentos brechtianos, estranhamentos e quebras da quarta parede. Por que essas escolhas de entrelaçar esse naturalismo e os estranhamentos foram e seguem sendo importantes para você neste trabalho?
Emmanuel: Meus trabalhos sempre trazem essa mistura. O teatro contemporâneo pode tudo, pode amarras técnicas como pode a liberdade performática. Eu tento não seguir regras, mas está como minha assinatura um aprofundamento emocional (natural/ real) em minhas obras, mas essa visceralidade é guiada por técnicas, urdimentos e quebras necessárias para o fazer refletir.
Quero a empatia, o mergulho da plateia na minha peça, o choro, o riso, o não perceber o tempo passar, mas também busco que despertem para a mensagem central, que estralem a consciência para o refletir que as cenas e dramaturgia pede. Acho que esses dois caminhos juntos, potencializam um ao outro. E particularmente gosto muito. Em Barraco 8 o primeiro ato é um fluxo contínuo de entradas e saídas dentro do barraco em que o tempo não se percebe e o envolvimento com a plateia é intensa e fluída.
Já o segundo ato traz uma ruptura nessa naturalidade que estava acontecendo por exemplo na marcação, as marcas mudam seu fluxo, trás estranheza, fotografias e tende a ser mais mecânico. O ritmo cria caminhos não mais fluído, e sim mais cortado, ainda existe uma velocidade mas é partida entre novos caminhos. O processo de reflexão e julgamento cresce no segundo ato e acredito que traz para a peça o caminho certo para finalizar com o impacto que ela precisa.
Emmanuel aponta processos anteriores desenvolvidos com você como importantes para que ele se aproximasse de experiências de pessoas trans e chegasse à criação de Diana. Como aconteceu essa troca entre vocês e de que maneira sua presença no processo contribuiu para a construção da personagem e para as questões de gênero que atravessam Barraco 8?
HBlynda: A nossa aproximação se deu no processo da criação do solo performático HBLYNDA EM TRANSito, onde Emmanuel é o diretor artístico. Ao longo do processo tivemos muitas conversas sobre gênero, sexualidade, identidade de gênero e conversamos muito sobre a falta da presença de pessoas trans na cena teatral pernambucana e que as histórias que participassem fossem histórias de um imaginário positivo, onde não só tivesse dores e estatísticas, mas sonhos, liberdade, amor.
Durante todo o processo de escrita da dramaturgia, Emmanuel me enviava para eu ler e fazer apontamentos sobre a história, então fomos construindo uma troca muito genuína. A minha presença no espetáculo, me afirmando nesse local de uma pessoas trans, fazendo uma personagens trans, é muito emblemático, principalmente por ter a vivência na pele e poder viver uma personagem tão resiliente, mas que está estudando para ser médica, rompe o imaginário social designado para muitas meninas trans, demonstra que estamos fissurando alguns espaços, e com muita luta desde as nossas mais velhas, nosso corpos começam a sair deste lugar de abjeção e vão ocupando espaço antes negados, excluídos, mas que agora não há mais como nos impedir, vamos derrubar as portas e entrar, vamos ocupar as universidades, ser Deputadas, Doutoras, mães e o quê desejarmos ser .
Diana é uma mulher trans e estudante de Medicina que deseja construir um futuro para além das violências e expectativas impostas a ela. Ao mesmo tempo, a dramaturgia procura não defini-la apenas pelas violências que sofre. Como você trabalha, na atuação, as diferentes dimensões dessa personagem, ou seja, seus desejos, afetos e projetos de futuro?
HBlynda: Diana é uma personagem que vem da periferia e por assim viver, está à margem por ser trans, à margem por ser preta, a margem por ser pobre, ela tem muitas camadas. E são nessas camadas que vou trabalhando. A primeira camada é não ser resumida a dor, as estatísticas, na história Diana tem um amor, isso já rompe com o imaginário de pessoas trans que não são amadas, podemos encontrar sim sucesso no amor. Quando Liniker diz, “Quando eu alçar o voo mais bonito da minha vida, quem me chamará de amor, de gostosa, de querida? Que vai me esperar em casa, polir a joia rara, ser o pseudofruto, a pele do caju”, eu consigo enxergar Diana, ela consegue ter esse gosto do amor, de ser desejada. A segunda questão é a graduação em Medicina, pois fala algo muito importante.
Ela querer exercer uma profissão que é tão valorizada em nosso país, rompe mais uma vez os locais que em grande maioria, são ocupados por pessoas trans, estando muitas vezes nas ruas ou em profissões de menor prestígio . Ela poderá ascender socialmente e demonstrar que uma pessoa trans pode ser o que quiser, que não vão limitar os espaços que podemos ocupar. Outro ponto que posso colocar, Diana traz para mim o acreditar no futuro como possibilidade de existência, de vitórias, de poder terminar meu Doutorado em Educação e poder ser uma professora universitária ocupando as universidades públicas desse nosso Brasil.
Barraco 8 começa apoiado numa atuação mais naturalista, próxima do cotidiano dos personagens, mas essa lógica é rompida depois do disparo, quando os atores passam também a evidenciar os mecanismos da representação. Como essa mudança de linguagem atravessa seu trabalho como atriz e modifica a relação entre você, Diana e o público ao longo do espetáculo?
HBlynda: Esse momento é algo que estamos construindo com muito cuidado, trazendo nuances e mostrando toda a nossa técnica teatral com movimentos corporais, respiração e intenções projetadas ao público. Algo muito latente é a visceralidade que estamos colocando no trabalho, deixar ser atravessada pelo o que está ouvindo e vivendo na cena. Neste segundo ato, como estamos colocando, tenho pensado em Diana num ritmo menos acelerado, ela é invadida por todos os poros quando vê que alguém morreu no barraco e sabe que podem desconfiar dela, por todos estereótipos que seu corpo carrega. Então, vem sendo um trabalho de muita dosagem da carga emocional, mas que não perde a força de mostrar sua verdade.












